Sexta-feira, 20 de maio, 2 e tanta da manhã, pego a ficha onde tem escrito além dos dados de identificação a queixa da triagem: "picada de lacraia". Chamo o paciente com o sinal de "pode vir" com a mão:
- É Iris ou Ivis?
- Iris é pros dois!!!
- Ah, termina em "i", né?
- A senhora ouviu falar do ministro Iris Rezende? Sabe como é o nome da mulher dele? Iris! ((PAGAÇÃO 1))
- ... ((fiquei no vácuo))
- Vim aqui porque a lacraia me picou...((não vou negar que lembrei logo da música))
- Onde?
- Aqui na bunda. ((baianos não pensam 2 vezes antes de chamar qualquer coisa pelo nome menos complicado))
- O senhor se sentiu mal na hora? ((porque no momento da consulta pra mim ele tava melhor do que bom))
- Não. Mas talvez "o" ((faz gesto de ingestão de líquidos apontando o polegar em direção a boca)) tenha parado a reação.
- É mas eu acho que não existe soro pra picada de lacraia não...
- A senhora que é médica é quem tem que saber! ((PAGAÇÃO 2))
- Deixa eu ver o lugar?! ((tempo pra confirmar o evento e tentar lembrar o que fazer))
- Foi aqui ((abaixa o short e mostra a bunda..nem rastro de picada de nada...nem um vermelhinho minimo sequer...)) Tá até duro no lugar. Olhe! ((palpo e não sinto nada diferente))
- Olhe, Seu Iris, não tem nada aqui não! Vá pra casa que tá tudo bem. ((claro que não tava; o alcoolismo já tava fazendo ele ter zoopsias, mas ... quem disse que eu tava lembrando de "tamanha" ciência na hora?)) Mas antes deixe eu ver sua pressão...13 por 8! tá normal!
- Mas normal né 12 por 8?! (PAGAÇÃO 3)
- Até 13 por 9 não tem problema não! ((para não ficar por baixo...omitindo os poréns...))
((silêncio))
- A senhora me dá uma declaração de comparecimento? ((será esse o real motivo da consulta? doidos não são burros; porque os bebinhos seriam?))
- Claro!
- Mas pode esticar umas horas ai a mais...((silêncio de caneta correndo o papel))
...mas não vim aqui pela declaração não! ((todo mundo figindo que acredita...sigo escrevendo))
- Pronto Seu Iris! Tá aqui a declaração!
- Me passe uma vitamina!
- Porque?
- Tô com os ossos fracos...
- Aos 46 anos? Isso né osso fraco não! Coma melhor que fortalece os ossos. E tome um pouquinho de sol pra ter vitamina D!
- Mas tô fraco...
- Isso aí é do álccol intoxicando seus nervos. Pare de beber! ((placar de PAGAÇÃO: 3 x 1))
- A senhora tá me dizendo pra cortar o álcool? ((só lembreI do povo de Garanhuns falando dos bebinhos: "fulano corta um álcool!"))
- Eu tô dizendo pro senhor reduzir a bebida! ((placar: 3 x 2))
- Mas não dá pra ser assim não: de uma vez só. ((é um expert!)) Já melhorei bastante.
- Então, eu disse isso: pra ir reduzindo aos poucos até parar. ((já tava confundindo o manejo dos vicios: alcoolismo x tabagismo ... placar: 4 x 2 - me levando no bico o cidadão...sorrizinho de canto de boca como resposta...conseguiu bem o que queria))
- Obrigado.
- Por nada.
Já na porta quase saindo, metade do corpo pra fora, metade do corpo pra dentro do consultório:
- Desculpe ai pela PAGAÇÂO!
Placar final : 5 x 2!!!
(Salvador - BA)
sábado, 29 de maio de 2010
segunda-feira, 5 de abril de 2010
selva
Conversando com uma colega de trabalho do interior que está na capital sobre as experiências minhas e dela, no meio da história ... :
- Lá é o mato mas aqui é que é a selva... - disse eu.
- Disse tudo! - concluiu ela.
- Lá é o mato mas aqui é que é a selva... - disse eu.
- Disse tudo! - concluiu ela.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
vox populi
A maioria de nós preocupa-se muitíssimo quando nos é dada a missão de falar sobre algo a uma platéia. Continuo achando que mais difícil que "saber falar" é saber escutar! Seguem pérolas me dadas no dia-a-dia:
"Ela toma aquele remédio, doutora! Aquele... [?] que TODO MUNDO TOMA...[?] Diazepan!"
"Tá doendo aqui no pé da barriga. Uma cóoolica forte!!! ... ['silêncio'; só se ouve a caneta passeando pelo papel]...A senhora não vai passar Buscopan não, né?! Tenho alergia!" [às 03h30 da manhã de uma sexta-feira]
"Ela toma aquele remédio, doutora! Aquele... [?] que TODO MUNDO TOMA...[?] Diazepan!"
"Tá doendo aqui no pé da barriga. Uma cóoolica forte!!! ... ['silêncio'; só se ouve a caneta passeando pelo papel]...A senhora não vai passar Buscopan não, né?! Tenho alergia!" [às 03h30 da manhã de uma sexta-feira]
(Salvador - BA)
terça-feira, 8 de setembro de 2009
sobre brócolis e injeções
Qual não foi a minha surpresa naquela manhã de atendimento na USF ao ouvir sair da boca daquela pequena flôr com pouco mais de 3 anos assim que entrou no consultório aquelas palavras:
- Eu quero injeção!!!
- Ela ficou esse tempo todo lá fora esperando e pedindo pela injeção, Doutora - completa a mãe pra ver se meu queixo acaba de cair.
Qualquer semelhança não é mera coincidência:
- Eu quero injeção!!!
- Ela ficou esse tempo todo lá fora esperando e pedindo pela injeção, Doutora - completa a mãe pra ver se meu queixo acaba de cair.
Qualquer semelhança não é mera coincidência:
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
“Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem”
Peço licença aos cristãos - sejam católicos ou protestantes - para lançar esta questão: “qual será a medida certa da maldade?” Não se trata de trocadilhos, jogo de palavras ou coisa do gênero. É uma questão que me tem tomado horas de reflexão ultimamente.
Durante a etapa universitária de minha formação procurei me espelhar muitíssimo nos mestres notoriamente humanistas. Bem antes disso, na verdade, o apreço pela medicina foi em mim despertado pela observação do lidar de minha tia Mônica com seus pacientes. Tamanho carinho, respeito e confiança mútua me moveram e motivaram pra medicina. Almejava, antes disso, a geometria estética da arquitetura. Mas a ética me fisgou!
Será o humanismo uma questão de ética ou de estética? Gritarão os pós-modernos: os dois!
Que seja.
Satisfaz-me hoje receber alguém necessitando apenasmente ser verdadeiramente ouvido sair de minha sala tendo alcançado o que fora buscar. Alguém que ouça sua história. Ouça seu corpo. Ouça seus pensamentos. Ouça para que ele mesmo possa se ouvir e se compreender de outra maneira.Fosse tão somente isso o cotidiano do trabalho seria eu premiada na loteria todos os dias. Sair com uma folha com seu nome, alguns medicamentos, data e carimbo, é acessório.
Acontece que em toda bela roseira há fortes espinhos. Acontece que nem todos tiveram a oportunidade de serem educados no construtivismo. Acontece que horizontalidade funciona muito bem pra pessoas com algum grau de civilidade e respeito ao próximo. Acontece que inventaram uma figura na saúde pública que é um misto de profissional de saúde com representante do controle social. Acontece que desde a época de Frankenstein misturebas são passíveis de gerar monstruosidades. E ai não há minimização de conflitos, dinâmicas de grupo, nem contratos de convivência que ponham freio nessa vaca indo pro brejo... Senso de coletividade, trabalho em equipe, foco nas necessidades da comunidade, parceria, etc, não há fórmulas nem “santos” da panacéia saúde publicana que dê jeito.
Eu nas minhas poucas mas boas andanças já estou bem cansada disso! A opinião que repudiei de meu tio Adelmar começo a apoiar: “agente comunitário de saúde é um ser desqualificado contratado para fazer um trabalho que exige qualificação”. Que fique bem claro que estamos falando de qualificação técnica. E porque não ética e estética? Humanistica?
Minha ilusão de que um bom trabalho junto à comunidade rende inexoravelmente bons frutos caiu por terra hoje! Nem isso barra a petulância e máleducação desses novos mutantes!
Encontrarei meu jeito de garantir minha pitada de maldade cotidiana para prevenir maiores infortúnios!
“E há tempos nem os anjos
Tem ao certo a medida da maldade
E Há tempos são os jovens que adoecem
Há tempos o encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
E só o acaso estendo os braços
A quem procura abrigo e proteção, meu amor
Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem”
Renato Manfredini Júnior Russo
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem”
Qual será a medida certa da maldade?
Peço licença aos cristãos - sejam católicos ou protestantes - para lançar esta questão: “qual será a medida certa da maldade?” Não se trata de trocadilhos, jogo de palavras ou coisa do gênero. É uma questão que me tem tomado horas de reflexão ultimamente.
Durante a etapa universitária de minha formação procurei me espelhar muitíssimo nos mestres notoriamente humanistas. Bem antes disso, na verdade, o apreço pela medicina foi em mim despertado pela observação do lidar de minha tia Mônica com seus pacientes. Tamanho carinho, respeito e confiança mútua me moveram e motivaram pra medicina. Almejava, antes disso, a geometria estética da arquitetura. Mas a ética me fisgou!
Será o humanismo uma questão de ética ou de estética? Gritarão os pós-modernos: os dois!
Que seja.
Satisfaz-me hoje receber alguém necessitando apenasmente ser verdadeiramente ouvido sair de minha sala tendo alcançado o que fora buscar. Alguém que ouça sua história. Ouça seu corpo. Ouça seus pensamentos. Ouça para que ele mesmo possa se ouvir e se compreender de outra maneira.Fosse tão somente isso o cotidiano do trabalho seria eu premiada na loteria todos os dias. Sair com uma folha com seu nome, alguns medicamentos, data e carimbo, é acessório.
Acontece que em toda bela roseira há fortes espinhos. Acontece que nem todos tiveram a oportunidade de serem educados no construtivismo. Acontece que horizontalidade funciona muito bem pra pessoas com algum grau de civilidade e respeito ao próximo. Acontece que inventaram uma figura na saúde pública que é um misto de profissional de saúde com representante do controle social. Acontece que desde a época de Frankenstein misturebas são passíveis de gerar monstruosidades. E ai não há minimização de conflitos, dinâmicas de grupo, nem contratos de convivência que ponham freio nessa vaca indo pro brejo... Senso de coletividade, trabalho em equipe, foco nas necessidades da comunidade, parceria, etc, não há fórmulas nem “santos” da panacéia saúde publicana que dê jeito.
Eu nas minhas poucas mas boas andanças já estou bem cansada disso! A opinião que repudiei de meu tio Adelmar começo a apoiar: “agente comunitário de saúde é um ser desqualificado contratado para fazer um trabalho que exige qualificação”. Que fique bem claro que estamos falando de qualificação técnica. E porque não ética e estética? Humanistica?
Minha ilusão de que um bom trabalho junto à comunidade rende inexoravelmente bons frutos caiu por terra hoje! Nem isso barra a petulância e máleducação desses novos mutantes!
Encontrarei meu jeito de garantir minha pitada de maldade cotidiana para prevenir maiores infortúnios!
“E há tempos nem os anjos
Tem ao certo a medida da maldade
E Há tempos são os jovens que adoecem
Há tempos o encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
E só o acaso estendo os braços
A quem procura abrigo e proteção, meu amor
Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem”
Renato Manfredini Júnior Russo
terça-feira, 22 de abril de 2008
laços de família
Foi o pai de Eme que me fez pensar nisso : “nunca perguntei a um paciente se ele estava sofrendo de remorso, culpa ou coisa parecida”. O pensamento não veio na hora do atendimento – consultei-o em uma urgência com relato de vômitos, em alguns momentos com sangue – demorou o tempo de eu reunir informações aqui e acolá. Lembrei que a assistência social havia me pedido pra avaliar uma menina com suspeita de abuso sexual. Lembrei de uma família nova da área, com uma mãe que trouxe os filhos pra consulta bastante ansiosa, quase aflita, com um olhar de quem se sente em ameaça constante. Foi essa mãe que naquela segunda-feira trazia o marido, igualmente ansiosa. Dias depois juntei as pecinhas do quebra-cabeça. Mas o que é de quebrar mesmo a cabeça são os questionamentos desde então. Como abordar uma mãe com uma filha possivelmente vítima de abuso que não toca no assunto em momento algum? Como abordar um pai que só vai à unidade em situação de extrema necessidade? Ainda que o posto seja pertinho da casa das pessoas como fazer uma visita domiciliar que não está sendo requisitada pela família? Não consigo deixar de pensar que o vômito do pai foi um movimento de expulsão de aflições, angústias, culpa quem sabe. A única convicção que tive/tenho é a de que preciso aprender a perguntar sobre as culpas e rancores que as pessoas carregam. Concluí também que carrego comigo uma postura algo paternalista. Talvez a saída seja a máxima : “hai que endurecer, sim perder la ternura jamais”. Difícil! Mas acredito ter começado a fazer progressos ...
Depois de atender Nana por um ano inteiro, com queixas quinzenais quando não semanais, as de sempre e outras novas, sempre com um semblante triste, cabisbaixa, preocupada com os problemas da mãe, sem melhora nem sequer adesão a nenhum tratamento proposto, depois de alguns atritos entre mim e ela (sobretudo pela não adesão ao tratamento), resolvi jogar duro. “Se chega já dizendo o que tem pra perguntar o que fazer é porque quer ouvir minha opinião. Certo? E pretende seguir minhas orientações. Certo? Você chega, consulta, oriento, você vai e não faz nada, então não tenho mais como te ajudar. Você fica se boicotando e eu fico fazendo papel de besta.Você já pensou nisso?” Depois disso ela prometeu se esforçar para seguir as recomendações. Na consulta seguinte chegou com a pressão mais controlada. Foi a hora da próxima pergunta: “você se considera uma pessoa triste ou feliz?” Seguiu-se um relato sobre sua vida : os pais se separaram, a mãe foi morar fora, o pai se casou novamente e a madrasta não o respeitava, se casou nova, logo teve filhos, com poucos anos de casada o marido surtou, passou um tempo em internação psiquiátrica, teve melhora, mas não pôde mais contar com ele para dividir as preocupações, o filho mais velho assim que pôde saiu de casa pra São Paulo, a filha não se interessa pelos problemas dela, a mãe voltou depois de anos porque ela é a filha que tem condições de lhe dar atenção mas vivem brigando, diz não ter amigos com que contar. Todos esses “pesos” são perceptíveis no seu semblante. Apesar das lágrimas, ao final disse : “eu sou feliz; acho que sou feliz”.
Na mesma semana fui visitar uma área mais distante. Conheci uma família fora dos padrões. Não se trata de dois pais ou duas mães com um filho, ou duas mães com um pai e vice-versa. Já havia atendido cada um deles no consultório em momentos distintos. Nesse dia soube que a mais velha é tia (Lia) das duas mais novas que dormem cada uma em sua casa (vizinhas) mas filho de uma delas mora com a tia, no caso tia-avó. As duas sobrinhas são pacientes psiquiátricas mas até então não sabia serem irmãs. Pergunto a Lia se os pais delas eram parentes próximos, se as maltratavam ou coisa parecida. Ela explica que uma delas sempre foi diferente, mais lenta pra aprender as coisas, desatenta, chegou a casar mas nunca teve filhos. A outra foi casada. E no parto do segundo filho quando ia receber alta viu o marido chegar no hospital esfaqueado quase sem vida. Poucos meses depois o filho mais velho morreu de uma hora pra outra. Nunca mais se recuperou. Lia sustenta o lar muito mais de que com sua aposentadoria, sustenta com os ossos e articulações tortas da artrite.
Devíamos ter aulas de literatura na faculdade. Leitura obrigatória: Laços de Família, Clarice Linspector; dentre infinitas outras.
Depois de atender Nana por um ano inteiro, com queixas quinzenais quando não semanais, as de sempre e outras novas, sempre com um semblante triste, cabisbaixa, preocupada com os problemas da mãe, sem melhora nem sequer adesão a nenhum tratamento proposto, depois de alguns atritos entre mim e ela (sobretudo pela não adesão ao tratamento), resolvi jogar duro. “Se chega já dizendo o que tem pra perguntar o que fazer é porque quer ouvir minha opinião. Certo? E pretende seguir minhas orientações. Certo? Você chega, consulta, oriento, você vai e não faz nada, então não tenho mais como te ajudar. Você fica se boicotando e eu fico fazendo papel de besta.Você já pensou nisso?” Depois disso ela prometeu se esforçar para seguir as recomendações. Na consulta seguinte chegou com a pressão mais controlada. Foi a hora da próxima pergunta: “você se considera uma pessoa triste ou feliz?” Seguiu-se um relato sobre sua vida : os pais se separaram, a mãe foi morar fora, o pai se casou novamente e a madrasta não o respeitava, se casou nova, logo teve filhos, com poucos anos de casada o marido surtou, passou um tempo em internação psiquiátrica, teve melhora, mas não pôde mais contar com ele para dividir as preocupações, o filho mais velho assim que pôde saiu de casa pra São Paulo, a filha não se interessa pelos problemas dela, a mãe voltou depois de anos porque ela é a filha que tem condições de lhe dar atenção mas vivem brigando, diz não ter amigos com que contar. Todos esses “pesos” são perceptíveis no seu semblante. Apesar das lágrimas, ao final disse : “eu sou feliz; acho que sou feliz”.
Na mesma semana fui visitar uma área mais distante. Conheci uma família fora dos padrões. Não se trata de dois pais ou duas mães com um filho, ou duas mães com um pai e vice-versa. Já havia atendido cada um deles no consultório em momentos distintos. Nesse dia soube que a mais velha é tia (Lia) das duas mais novas que dormem cada uma em sua casa (vizinhas) mas filho de uma delas mora com a tia, no caso tia-avó. As duas sobrinhas são pacientes psiquiátricas mas até então não sabia serem irmãs. Pergunto a Lia se os pais delas eram parentes próximos, se as maltratavam ou coisa parecida. Ela explica que uma delas sempre foi diferente, mais lenta pra aprender as coisas, desatenta, chegou a casar mas nunca teve filhos. A outra foi casada. E no parto do segundo filho quando ia receber alta viu o marido chegar no hospital esfaqueado quase sem vida. Poucos meses depois o filho mais velho morreu de uma hora pra outra. Nunca mais se recuperou. Lia sustenta o lar muito mais de que com sua aposentadoria, sustenta com os ossos e articulações tortas da artrite.
Devíamos ter aulas de literatura na faculdade. Leitura obrigatória: Laços de Família, Clarice Linspector; dentre infinitas outras.
(Ibitiara-BA)
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
participo desse lugar

Pra onde se olhava era marrom, de vários tons - e muita, muita poeira. Foi assim por alguns meses. Dez dias de chuva, um atolamento e três dias de sol depois o verde começa a tomar conta de tudo. As primaveras floriram um amarelo mais intenso que o do ipê. É tempo de plantar! Arar a terra com carro de boi. Semear milho e feijão. O gado que já exibia as costelas e andava léguas pra tentar matar a sede agora como capim novinho-novinho, e os açudes todos se encheram.
Há muito não escrevia pro Diário. O que dizer não faltou. Mas quando as palavras não me brotam com fluência prefiro não insistir. Talvez tenha sido as férias que dei pra magrela - pedalar me inspira. Nem sei por que dei, mas foi sendo assim.
Nesse meio tempo a equipe do PSF mudou, eu mudei, painho e mainha se mudaram, meu tio está mudando (amém), Dezza casou, Gardênia nasceu, a luz do Posto acendeu, e a colônia Ibitiarense cresceu: seja bem-vinda Delle!!!
O tempo passa! Mas Einstein diria que é a gente que acha que ele passa, porque na verdade ele é. Questões físicas à parte... Depois de amanhã eu e os amigos/colegas da turma 110 completamos um ano de formatura. Parece que foi ontem. Começo a aprender o que é ser médica – um dia o serei em plenitude! Percebo que tive grandes mestres mas a universidade carece de muitos mais. Sinto saudades dos poucos que encontrei. Hoje os tenho nas pessoas que cuido. Vejam que figuras:
Hoje consultei pela décima terceira vez Dona Rita. Isso mesmo: treze consultas num intervalo de seis meses; cada uma delas com duração de no mínimo vinte minutos. Além de hipertensa e diabética, é tarada por tudo que não pode comer. Fora as reavaliações de rotina essas idas e vindas se dão por causa de sucessivas “crises de mal-estar”. Lá pra quinta consulta comecei a perceber que as crises ocorriam quando a glicemia dela normalizava (dentro dos parâmetros oficiais). Hoje foi ao atendimento queixando-se de mal-estar e com a glicemia normal. Mais uma vez reduzi as medicações do diabetes e lhe disse: “Não vamos mais controlar seu diabetes e sim seu bem-estar. A senhora vai ficar bem e com a glicose um pouquinho alta sem maiores problemas.”
Alguns dias atrás uma senhora de 70 e muitos anos chega pra consulta sozinha, senta, lhe dou bom-dia, pergunto como está se sentindo, ela levanta e, quase alcançando os pés com as pontas dos dedos das mãos sem dobrar os joelhos, diz: “é que quando eu faço assim dói aqui no fim das costas”.
Me esforço pra lembrar de outros tantos casos mas já não consigo mais recolher histórias transmitindo o tom pitoresco como antes. Penso que meu ouvir e meu olhar percebem de outra maneira o que me mostram e dizem as pessoas. Consigo ser mais empática, e menos crítica aos relatos que me fazem. Deve haver uma explicação/expressão antropológica pra isso, a que me vem à mente é: participo desse lugar.
Por fim deixo as palavras do poeta João Paraibano:
Há muito não escrevia pro Diário. O que dizer não faltou. Mas quando as palavras não me brotam com fluência prefiro não insistir. Talvez tenha sido as férias que dei pra magrela - pedalar me inspira. Nem sei por que dei, mas foi sendo assim.
Nesse meio tempo a equipe do PSF mudou, eu mudei, painho e mainha se mudaram, meu tio está mudando (amém), Dezza casou, Gardênia nasceu, a luz do Posto acendeu, e a colônia Ibitiarense cresceu: seja bem-vinda Delle!!!
O tempo passa! Mas Einstein diria que é a gente que acha que ele passa, porque na verdade ele é. Questões físicas à parte... Depois de amanhã eu e os amigos/colegas da turma 110 completamos um ano de formatura. Parece que foi ontem. Começo a aprender o que é ser médica – um dia o serei em plenitude! Percebo que tive grandes mestres mas a universidade carece de muitos mais. Sinto saudades dos poucos que encontrei. Hoje os tenho nas pessoas que cuido. Vejam que figuras:
Hoje consultei pela décima terceira vez Dona Rita. Isso mesmo: treze consultas num intervalo de seis meses; cada uma delas com duração de no mínimo vinte minutos. Além de hipertensa e diabética, é tarada por tudo que não pode comer. Fora as reavaliações de rotina essas idas e vindas se dão por causa de sucessivas “crises de mal-estar”. Lá pra quinta consulta comecei a perceber que as crises ocorriam quando a glicemia dela normalizava (dentro dos parâmetros oficiais). Hoje foi ao atendimento queixando-se de mal-estar e com a glicemia normal. Mais uma vez reduzi as medicações do diabetes e lhe disse: “Não vamos mais controlar seu diabetes e sim seu bem-estar. A senhora vai ficar bem e com a glicose um pouquinho alta sem maiores problemas.”
Alguns dias atrás uma senhora de 70 e muitos anos chega pra consulta sozinha, senta, lhe dou bom-dia, pergunto como está se sentindo, ela levanta e, quase alcançando os pés com as pontas dos dedos das mãos sem dobrar os joelhos, diz: “é que quando eu faço assim dói aqui no fim das costas”.
Me esforço pra lembrar de outros tantos casos mas já não consigo mais recolher histórias transmitindo o tom pitoresco como antes. Penso que meu ouvir e meu olhar percebem de outra maneira o que me mostram e dizem as pessoas. Consigo ser mais empática, e menos crítica aos relatos que me fazem. Deve haver uma explicação/expressão antropológica pra isso, a que me vem à mente é: participo desse lugar.
Por fim deixo as palavras do poeta João Paraibano:
“Quando chove no sertão
O sol deita e água rola
O sapo vomita espuma
Onde um boi pisa se atola
E a fartura esconde o saco
Onde a fome pedia esmola”
O sol deita e água rola
O sapo vomita espuma
Onde um boi pisa se atola
E a fartura esconde o saco
Onde a fome pedia esmola”
(Ibitiara-BA)
terça-feira, 4 de setembro de 2007
vocábulos
Na primeira oficina de reciclagem que fizemos lá na Unidade (muito proveitosa e estimulante por sinal) acabamos durante o almoço caindo num tema corriqueiro para recém-chegados como eu (não mais tão ‘recém’ assim) : o jeito do povo falar. Confessei uma garfe acontecida num dos primeiros plantões:
Ao chegar à beira do leito da paciente depois de ter avaliado as informações contidas no prontuário que mostravam que sua situação era bastante delicada – sua função cardíaca estava muito comprometida – pergunto:
- Como a senhora passou de ontem pra hoje?
- Passei bem. Mas olhe, não consigo desistir!
- Não desista não! Seguindo o tratamento certinho a senhora vai melhorando aos poucos – disse eu tentando animá-la.
- Dotôra, eu vou no banheiro [começo a perceber que quando ela fala passa a mão na barriga em movimentos circulares] tento, tento... Mas não desisto!
A ficha cai e respondo:
- Ah, a senhora não tá conseguindo fazer cocô...
- É, dotôra. Faz dias... eu sou ruim de desistir!
Saio rapidinho pra não rir na frente dela.
Pronto! Pra que eu fui contar? Todo mundo deu boas gargalhadas (inclusive eu) pela minha “falta de noção em lingüística regional”. E toda vez que vejo a(o)s meninas(os) – agentes de saúde – eles dizem:
- E ai, Amanda? Não desista não, viu!!!
E a gente cai na gargalhada.
Vou escrever aqui uma amostra das coisas que ouço. Captar o significado das expressões vai ficando fácil. Difícil é reproduzir a linha de raciocínio dos relatos de muitas pessoas sobre o que se passa no seu corpo e mente. Pense?! [risos] Lá vai um pouco do “dicionário da língua sertaneja”:
Desistir – o mesmo que obrar, defecar; ato de pôr o cocô para fora.
Cessar – peneirar; passar por uma trama uma massa ou farinha para torná-la mais fina.
Sou cozida(o) – expressão para designar que a pessoa possui as fezes ressecadas, o cocô duro pra sair.
Tombando – ato de se revirar associado em geral sintomas dolorosos ou desorientação.
Ramo – o mesmo que estopor, ou estoporo – sair do quente e pegar um vento frio, ou estar no frio e tomar rápido algo quente; o mesmo que choque-térmico, porém seguido de um adoecimento profundo.
Esbaguar – secretar.
Estilar – nariz escorrendo; coriza.
Malino – quem faz malinesa; “esse menino é malino demais”; traquino, travesso, treloso, desinquieto; no interior de pernambuco dizem “esse menino é os pés da besta”.
Sussar – ato de ninar, acalentar carinhosamente com cantigas.
Tiché – ou totó; genitália externa feminina, cientificamente chamada de vagina.
Dá de corpo – outra expressão para denominar o ato evacuatório; fazer cocô.
Orelha Seca – polícia, para os moradores do vale do Capão.
Pé de pano – o mesmo que ricardão, urso, sócio; aquele que faz de outrém ‘corno’.
- Como a senhora passou de ontem pra hoje?
- Passei bem. Mas olhe, não consigo desistir!
- Não desista não! Seguindo o tratamento certinho a senhora vai melhorando aos poucos – disse eu tentando animá-la.
- Dotôra, eu vou no banheiro [começo a perceber que quando ela fala passa a mão na barriga em movimentos circulares] tento, tento... Mas não desisto!
A ficha cai e respondo:
- Ah, a senhora não tá conseguindo fazer cocô...
- É, dotôra. Faz dias... eu sou ruim de desistir!
Saio rapidinho pra não rir na frente dela.
Pronto! Pra que eu fui contar? Todo mundo deu boas gargalhadas (inclusive eu) pela minha “falta de noção em lingüística regional”. E toda vez que vejo a(o)s meninas(os) – agentes de saúde – eles dizem:
- E ai, Amanda? Não desista não, viu!!!
E a gente cai na gargalhada.
Vou escrever aqui uma amostra das coisas que ouço. Captar o significado das expressões vai ficando fácil. Difícil é reproduzir a linha de raciocínio dos relatos de muitas pessoas sobre o que se passa no seu corpo e mente. Pense?! [risos] Lá vai um pouco do “dicionário da língua sertaneja”:
Desistir – o mesmo que obrar, defecar; ato de pôr o cocô para fora.
Cessar – peneirar; passar por uma trama uma massa ou farinha para torná-la mais fina.
Sou cozida(o) – expressão para designar que a pessoa possui as fezes ressecadas, o cocô duro pra sair.
Tombando – ato de se revirar associado em geral sintomas dolorosos ou desorientação.
Ramo – o mesmo que estopor, ou estoporo – sair do quente e pegar um vento frio, ou estar no frio e tomar rápido algo quente; o mesmo que choque-térmico, porém seguido de um adoecimento profundo.
Esbaguar – secretar.
Estilar – nariz escorrendo; coriza.
Malino – quem faz malinesa; “esse menino é malino demais”; traquino, travesso, treloso, desinquieto; no interior de pernambuco dizem “esse menino é os pés da besta”.
Sussar – ato de ninar, acalentar carinhosamente com cantigas.
Tiché – ou totó; genitália externa feminina, cientificamente chamada de vagina.
Dá de corpo – outra expressão para denominar o ato evacuatório; fazer cocô.
Orelha Seca – polícia, para os moradores do vale do Capão.
Pé de pano – o mesmo que ricardão, urso, sócio; aquele que faz de outrém ‘corno’.
(Ibitiara-BA)
domingo, 2 de setembro de 2007
tal coisa
Há dias que parecem programados para pôr à prova nossas escolhas. Esses dias têm sido assim pra mim.
Ao decidir sair do lugar onde vivi minha vida inteira para morar e trabalhar em outro lugar tão distante e diferente julgava ter noção de como seria essa experiência. Hoje vejo que noção nenhuma substitui a vivência em si. Sonho e concretude são complementares, mas jamais se permutam!
Dentre tantas vivências que me fazem pensar nisso conto uma...
Em vinte e quatro horas passei por um parto demorado e uma morte rápida. [[morte e vida estão sempre presentes em minhas reflexões, não é? na verdade estão nas de todos nós ... acredito]] Fui testada em minhas aptidões e habilidades obstétricas porém me sai melhor como ‘neonatologista por necessidade’! Vi a dor de uma família ao “perder pra morte” um ente querido que já chegou falecida ao hospital e só concretizar isso ao ouvir de minha boca: "morreu".
Mas como diz o samba – “Deus dá o frio conforme o cobertor” – tratou Ele de me mandar um cobertor em forma de humano aos oitenta e muitos anos de sabedoria por apelido Filhinho, que agradeceu a mim pela atenção e pelos cuidados prestados mesmo após ter feito uma palestra sobre a vida que me arrancou lágrimas, levando junto o peso do coração e uns vinte nós da garganta.
Alguém pode estar se perguntando: e porque esse nome ‘tal coisa’ para o texto? No começo da escrevinhança coloquei como uma homenagem a Seu Filhinho, que fala “tal coisa” onde comumente usamos “isso”, “aquilo”. Agora acho que ‘tal coisa’ também serve pra falar de um sentimento que a gente sente quando está crescendo. Algo como se fosse uma mistura de descontentamento, serenidade, raiva, saudade, ... Como se fossem todos eles ao mesmo tempo, sem ser nenhum deles! Quem já passou ou sentiu deve saber do que tô falando.
PS: Felicidades aos macacos : Asas, Alfred e Iza. =*
Ao decidir sair do lugar onde vivi minha vida inteira para morar e trabalhar em outro lugar tão distante e diferente julgava ter noção de como seria essa experiência. Hoje vejo que noção nenhuma substitui a vivência em si. Sonho e concretude são complementares, mas jamais se permutam!
Dentre tantas vivências que me fazem pensar nisso conto uma...
Em vinte e quatro horas passei por um parto demorado e uma morte rápida. [[morte e vida estão sempre presentes em minhas reflexões, não é? na verdade estão nas de todos nós ... acredito]] Fui testada em minhas aptidões e habilidades obstétricas porém me sai melhor como ‘neonatologista por necessidade’! Vi a dor de uma família ao “perder pra morte” um ente querido que já chegou falecida ao hospital e só concretizar isso ao ouvir de minha boca: "morreu".
Mas como diz o samba – “Deus dá o frio conforme o cobertor” – tratou Ele de me mandar um cobertor em forma de humano aos oitenta e muitos anos de sabedoria por apelido Filhinho, que agradeceu a mim pela atenção e pelos cuidados prestados mesmo após ter feito uma palestra sobre a vida que me arrancou lágrimas, levando junto o peso do coração e uns vinte nós da garganta.
Alguém pode estar se perguntando: e porque esse nome ‘tal coisa’ para o texto? No começo da escrevinhança coloquei como uma homenagem a Seu Filhinho, que fala “tal coisa” onde comumente usamos “isso”, “aquilo”. Agora acho que ‘tal coisa’ também serve pra falar de um sentimento que a gente sente quando está crescendo. Algo como se fosse uma mistura de descontentamento, serenidade, raiva, saudade, ... Como se fossem todos eles ao mesmo tempo, sem ser nenhum deles! Quem já passou ou sentiu deve saber do que tô falando.
PS: Felicidades aos macacos : Asas, Alfred e Iza. =*
(Seabra - BA)
domingo, 5 de agosto de 2007
grande cidade pequena, pequena cidade grande
Era pra ter sido o mais frio, não foi. Era pra ter sido o mais calmo, não foi. Julho já se foi sem ter sido o que eu esperava...
Em Junho decidi desacelerar o ritmo de trabalho para poder não ficar tão cansada, conseguir ler mais, estudar mais. Mas os prenúncios não se cumpriram por completo e no lugar da calmaria vieram acontecimentos intensos. Começando pela oficina sobre a Fundação Estadual de Saúde da Família [no Congresso da Abrasco] elevada à categoria de mais nova e melhor solução para a expansão e consolidação do SUS. Espanta qualquer trabalhador atento por não se constituir uma verdadeira estratégia de resgate dos direitos trabalhistas. Não queremos continuar vivendo na pele a Emenda 3 porém CLT flexibilizada e Fundação Estatal de Direito Privado não é a reforma do estado brasileiro que almejamos. Decepciona ouvir que não há outra saída, não temos correlação de força pra reimpulsionar o nosso sistema único por outras vias, ainda mais quando essa avaliação parte de vozes de companheiros...
Na semana seguinte, na primeira conferência municipal de saúde de Ibitiara, após as palestras de abertura, levantei esse debate mas o tema não ecoou, havia apenas 3 ou 4 pessoas a par do que se tratava. Mesmo assim o espaço não perdeu sua importância! Conseguimos reunir boa parte dos trabalhadores de saúde e quase todos os líderes comunitários. Em um dia inteiro de trabalho, sem grandes contra-tempos ou atrasos, elaboramos metas para a saúde do município nos próximos 2 anos de maneira bastante clara e suscinta. Já tinha participado de outros espaços de controle social. Me impressinou como pode ser rico, propositivo, claro e plural um espaço de debate público quando há vontade pra que isso aconteça apesar de qualquer limitação temporal ou da pouca aproximação da maioria das pessoas com os aspectos técnicos que envolvem os debates. Essa pessoinha que voz fala – como alguns já devem estar imaginando - não só virou coordenadora de grupo de última hora como foi eleita delegada pra conferência estadual de saúde representando os trabalhadores de saúde do município. Mainha deve estar pensando : "essa menina não tem jeito!" É mais ou menos por ai... [risos]
Quem já leu até aqui deve estar pensando que esse mês só vivi de debates. Foi quase isso!
Eu diria que Julho foi de andanças que continuarão Agosto adentro... Começamos a visitar as localidades atendidas pelo nossa unidade de saúde: vila nova, coqueiros, areias, serrinha ... Quando a gente mora em "cidade grande" geralmente não tem idéia de quão grande podem ser as "cidades pequenas". Afinal de contas estamos falando da Bahia - os que já atravessaram esse estado em quaisquer veículo automotivo têm noção do que eu estou falando. Pois então... A região que engloba os povoados atendidos pela nossa unidade de saúde é grande pra caramba! Sob morro, desce morro. Passa chão de terra batida, chão de areia fina, de terra vermelha, de terra marrom, caminho largo, caminho estreito ... e nada das estradas se acabarem! Fazer um mapa da área só usando GPS!!! Vamos levar 6 ou 7 dias [distribuídos em quase 2 meses] pra conhecer tudo. Tudo ... da nossa área: largo, tamboril, olhos dágua, frios, unha-de-gato, caraibas, brauninha, riachão, caldeirão, capão, tiririca de baixo, tiririca de cima, paus de gamela. Lá pro final de setembro vou poder dizer que conheço uma parte de Ibitiara. Seria esse lugar pequeno?! Há quem diga que sim... eu não me atrevo mais!
Também conheci outros povoados : caibongo [onde mora o prefeito], mocambo [na parte do município que fica abaixo da serra da mangabeira, região que a maioria das pessoas conhece como catinga] e alvinópolis [já na cidade vizinha : Ibipitanga] - graças aos novos companheiros de aventura Lenice e Tiago.
Por fim, vai uma piada contada por Iraildes, vulgo Véia, prima de Lenice, anfitriã de primeira, da terra do rio Cochó:
"A princesa ia fazer 15 anos. E pediu ao Rei um papagaio como presente de aniversário poucos dias antes da festa. O Rei pediu a um serviçal da corte que fizesse de tudo pra conseguir o bendito do animal. O único bicho da espécie encontrado na região foi um que trabalhava num brega.
O presente foi colocado na portaria do castelo para que todos os convidados vissem. O povo ia chegando e o papagaio dizendo:
- Vai entrando! Vai entrando! Beijo é 10. Abraço é 20. Foto é 50!!!
Lá pras tantas alguém foi avisar ao Rei o que o animal estava fazendo. O Rei mandou trazer o bicho. Prendeu ele bem com as mãos e deu seis tiros ao redor:
- Tá vendo esses tiros? Se você não parar com essa conversa na portaria o próximo vai ser nos seus miolos!!!
E mandou o bicho de volta.
Na portaria o animal passou a receber os convidados dizendo:
- Vai entrando! Vai entrando! Beijo é 10. Abraço é 20. Foto é 50!!! Já teve uns tirinho ai, mas Brega é assim mesmo!!!"
Que bom que nem tudo é como a gente espera!
Seabra 05 de Agosto de 2007
Em Junho decidi desacelerar o ritmo de trabalho para poder não ficar tão cansada, conseguir ler mais, estudar mais. Mas os prenúncios não se cumpriram por completo e no lugar da calmaria vieram acontecimentos intensos. Começando pela oficina sobre a Fundação Estadual de Saúde da Família [no Congresso da Abrasco] elevada à categoria de mais nova e melhor solução para a expansão e consolidação do SUS. Espanta qualquer trabalhador atento por não se constituir uma verdadeira estratégia de resgate dos direitos trabalhistas. Não queremos continuar vivendo na pele a Emenda 3 porém CLT flexibilizada e Fundação Estatal de Direito Privado não é a reforma do estado brasileiro que almejamos. Decepciona ouvir que não há outra saída, não temos correlação de força pra reimpulsionar o nosso sistema único por outras vias, ainda mais quando essa avaliação parte de vozes de companheiros...
Na semana seguinte, na primeira conferência municipal de saúde de Ibitiara, após as palestras de abertura, levantei esse debate mas o tema não ecoou, havia apenas 3 ou 4 pessoas a par do que se tratava. Mesmo assim o espaço não perdeu sua importância! Conseguimos reunir boa parte dos trabalhadores de saúde e quase todos os líderes comunitários. Em um dia inteiro de trabalho, sem grandes contra-tempos ou atrasos, elaboramos metas para a saúde do município nos próximos 2 anos de maneira bastante clara e suscinta. Já tinha participado de outros espaços de controle social. Me impressinou como pode ser rico, propositivo, claro e plural um espaço de debate público quando há vontade pra que isso aconteça apesar de qualquer limitação temporal ou da pouca aproximação da maioria das pessoas com os aspectos técnicos que envolvem os debates. Essa pessoinha que voz fala – como alguns já devem estar imaginando - não só virou coordenadora de grupo de última hora como foi eleita delegada pra conferência estadual de saúde representando os trabalhadores de saúde do município. Mainha deve estar pensando : "essa menina não tem jeito!" É mais ou menos por ai... [risos]
Quem já leu até aqui deve estar pensando que esse mês só vivi de debates. Foi quase isso!
Eu diria que Julho foi de andanças que continuarão Agosto adentro... Começamos a visitar as localidades atendidas pelo nossa unidade de saúde: vila nova, coqueiros, areias, serrinha ... Quando a gente mora em "cidade grande" geralmente não tem idéia de quão grande podem ser as "cidades pequenas". Afinal de contas estamos falando da Bahia - os que já atravessaram esse estado em quaisquer veículo automotivo têm noção do que eu estou falando. Pois então... A região que engloba os povoados atendidos pela nossa unidade de saúde é grande pra caramba! Sob morro, desce morro. Passa chão de terra batida, chão de areia fina, de terra vermelha, de terra marrom, caminho largo, caminho estreito ... e nada das estradas se acabarem! Fazer um mapa da área só usando GPS!!! Vamos levar 6 ou 7 dias [distribuídos em quase 2 meses] pra conhecer tudo. Tudo ... da nossa área: largo, tamboril, olhos dágua, frios, unha-de-gato, caraibas, brauninha, riachão, caldeirão, capão, tiririca de baixo, tiririca de cima, paus de gamela. Lá pro final de setembro vou poder dizer que conheço uma parte de Ibitiara. Seria esse lugar pequeno?! Há quem diga que sim... eu não me atrevo mais!
Também conheci outros povoados : caibongo [onde mora o prefeito], mocambo [na parte do município que fica abaixo da serra da mangabeira, região que a maioria das pessoas conhece como catinga] e alvinópolis [já na cidade vizinha : Ibipitanga] - graças aos novos companheiros de aventura Lenice e Tiago.
Por fim, vai uma piada contada por Iraildes, vulgo Véia, prima de Lenice, anfitriã de primeira, da terra do rio Cochó:
"A princesa ia fazer 15 anos. E pediu ao Rei um papagaio como presente de aniversário poucos dias antes da festa. O Rei pediu a um serviçal da corte que fizesse de tudo pra conseguir o bendito do animal. O único bicho da espécie encontrado na região foi um que trabalhava num brega.
O presente foi colocado na portaria do castelo para que todos os convidados vissem. O povo ia chegando e o papagaio dizendo:
- Vai entrando! Vai entrando! Beijo é 10. Abraço é 20. Foto é 50!!!
Lá pras tantas alguém foi avisar ao Rei o que o animal estava fazendo. O Rei mandou trazer o bicho. Prendeu ele bem com as mãos e deu seis tiros ao redor:
- Tá vendo esses tiros? Se você não parar com essa conversa na portaria o próximo vai ser nos seus miolos!!!
E mandou o bicho de volta.
Na portaria o animal passou a receber os convidados dizendo:
- Vai entrando! Vai entrando! Beijo é 10. Abraço é 20. Foto é 50!!! Já teve uns tirinho ai, mas Brega é assim mesmo!!!"
Que bom que nem tudo é como a gente espera!
Seabra 05 de Agosto de 2007
segunda-feira, 9 de julho de 2007
moribundos
Era pra ser apenas mais uma semana. Mas se iniciou e findou morbidamente. Eu explico como foi isso...
Em plena terça-feira, não sei porque cargas d’água, comentávamos sobre histórias de morte, e como cada uma de nós achava melhor morrer, no nosso anexo da SMS, vulgo “casa”.
Na quarta-feira fizemos uma visita devida há mais de uma semana : eu, Ló, Seu Renilson [nosso motorista e membro interino da equipe – pode não opinar mas ouve quase todas as discussões que temos durante as viagens de ida e volta ao trabalho] , Edson [conselheiro tutelar, conselheiro do conselho de direitos, pau-pra-toda-obra, e agente de funerária], e uma funcionária do cartório [vez por outra damos carona a alguém]. Chegamos à casa de Seu Menelau. Como sempre cabisbaixo mas dessa vez de barba feita e menos triste. Levamos um susto na primeira visita ao vermos sua ferida comprometendo a totalidade da circunferência perna direita, de uma profundidade, aspecto e cheiros horrentos! Divide a pernas em duas partes: pé e coxa inchados e escurecidos. Sabe-se Deus, e só Ele mesmo, como ainda consegue ter circulação e sensibilidade no pé. Em pouco tempo fazemos seu primeiro curativo – o último fora há tanto tempo que nem o ano ele sabe dizer qual foi; a idade da ferida ele relatou ter mais de 20 anos. Isso mesmo: vinte anos!!! Falamos da importância de ele ser persistente no tratamento, de ter força de vontade pra ir à Unidade de Saúde, que estamos fazendo nossa parte, mas que sua melhora depende sobretudo dele. Parece que dessa vez ele se convenceu mais conosco. Partimos. Mas o cheiro da ferida e sua imagem nos acompanhou na volta pra casa. Começo a entender o porque do isolamento social em que ele se imbuiu ... Faltava mais a descobrir - sempre falta - a funcionária do cartório disse que ele recebe benefício do INSS por causa da ferida. É... renda mínima às custas da própria vida. Morte em vida!
Seguimos viagem e pra descontrai perguntei a Edson como andava os negócios, se ele estava vendendo muitos planos funerários, se as pessoas achavam ofensa oferecer esse tipo de serviço. Ele me conta que não, que tem gente que acha que traz mal-agouro mas outros gostam de se precaver e providenciar tudo antes que o bendito dia chegue. Conta ainda que um de meus pacientes mais assíduos - Seu Ivanildo – já comprou o seu plano; e mais, comprou o plano que dá direito a servir chocolate quente no velório!!! Não pude deixar de cair na risada. E seguimos falando dos causos sobre funerárias e velórios...
Na quinta-feira, em Santa Quitéria, conheço Seu Raimundo. Já nos primeiros minutos da consulta ele desaba a chorar contando como sua vida mudou depois do derrame. Conta da vida próspera que teve em São Paulo, da dedicação aos filhos que o deixaram, nem mais dão um telefone pra saber como ele está. Seu corpo ainda forte padece. Não só de Diabetes, nem Hipertensão, nem com as seqüelas do AVC, mas de tristeza, de solidão! Minhas palavras são o que ofereço, ressaltando sua lucidez, a benção de ter sobrevivido ao aneurisma. Mas no fundo penso se não era melhor ter perdido a vida de uma vez. Não aos poucos como por hora acontece!
Padece também de solidão Dona Nair. Na primeira consulta nem suspeitei, pensei tratar-se tão somente de mais uma paciente hipertensão e bronquítica. Na segunda soube que sua família havia ido toda pra São Paulo, todos os irmãos, ela jamais se casara, e os pais morreram. E avaliando mais atentamente percebi uma taquipnéia [respiração acelerada] que só aconteceu mediante a minha aproximação pra lhe examinar. E questionei no prontuário : “hipocondríaca?”. Na última consulta constatei. Não pude negar pra mim, muito menos pra ela : “Dona Nair, a senhora tem o pulmão perfeitamente saudável. Se brincar, melhor que o meu. Me diga? O que está acontecendo? A senhora está preocupada? Angustiada? Triste?” Ela não se abriu. Permaneceu renitente, mas percebeu que eu já percebi do que se trata seu problema. Apenas falou ao fim da consulta : “Você pode escrever esses remédios nessa receita? É que quando eu for no INSS eles precisam ver que tô tomando ele.” Não transcrevi. E confesso que ainda não sei se agi certo...
No fim-de-semana, preocupada com a congruência astral de vivenciar o dia 07/07/07 em pleno plantão, pus minhas orelhinhas em pé. E não foi à toa. A clínica cardiológica estava recheada de sobreviventes : sobreviventes de AVCs, sobreviventes de infartos, sobreviventes de arritmias e insuficiências cardíacas, sobreviventes de diabetes ... sobreviventes! Enfermaria repleta!!! Mas felizmente, o mal-presságio se concretizou no domingo. E bem distante dali. Os pacientes evoluíram bem. A morte tirou a vida de Dr. Gildo, médico de 48 anos, que já havia trabalhado lá na clínica, conhecido por sua rapidez : no centro cirúrgico e ao volante. Essa última lhe tirou a vida na estrada... Que encontre bom descanso e paz.
Acaba semana, acaba!
Em plena terça-feira, não sei porque cargas d’água, comentávamos sobre histórias de morte, e como cada uma de nós achava melhor morrer, no nosso anexo da SMS, vulgo “casa”.
Na quarta-feira fizemos uma visita devida há mais de uma semana : eu, Ló, Seu Renilson [nosso motorista e membro interino da equipe – pode não opinar mas ouve quase todas as discussões que temos durante as viagens de ida e volta ao trabalho] , Edson [conselheiro tutelar, conselheiro do conselho de direitos, pau-pra-toda-obra, e agente de funerária], e uma funcionária do cartório [vez por outra damos carona a alguém]. Chegamos à casa de Seu Menelau. Como sempre cabisbaixo mas dessa vez de barba feita e menos triste. Levamos um susto na primeira visita ao vermos sua ferida comprometendo a totalidade da circunferência perna direita, de uma profundidade, aspecto e cheiros horrentos! Divide a pernas em duas partes: pé e coxa inchados e escurecidos. Sabe-se Deus, e só Ele mesmo, como ainda consegue ter circulação e sensibilidade no pé. Em pouco tempo fazemos seu primeiro curativo – o último fora há tanto tempo que nem o ano ele sabe dizer qual foi; a idade da ferida ele relatou ter mais de 20 anos. Isso mesmo: vinte anos!!! Falamos da importância de ele ser persistente no tratamento, de ter força de vontade pra ir à Unidade de Saúde, que estamos fazendo nossa parte, mas que sua melhora depende sobretudo dele. Parece que dessa vez ele se convenceu mais conosco. Partimos. Mas o cheiro da ferida e sua imagem nos acompanhou na volta pra casa. Começo a entender o porque do isolamento social em que ele se imbuiu ... Faltava mais a descobrir - sempre falta - a funcionária do cartório disse que ele recebe benefício do INSS por causa da ferida. É... renda mínima às custas da própria vida. Morte em vida!
Seguimos viagem e pra descontrai perguntei a Edson como andava os negócios, se ele estava vendendo muitos planos funerários, se as pessoas achavam ofensa oferecer esse tipo de serviço. Ele me conta que não, que tem gente que acha que traz mal-agouro mas outros gostam de se precaver e providenciar tudo antes que o bendito dia chegue. Conta ainda que um de meus pacientes mais assíduos - Seu Ivanildo – já comprou o seu plano; e mais, comprou o plano que dá direito a servir chocolate quente no velório!!! Não pude deixar de cair na risada. E seguimos falando dos causos sobre funerárias e velórios...
Na quinta-feira, em Santa Quitéria, conheço Seu Raimundo. Já nos primeiros minutos da consulta ele desaba a chorar contando como sua vida mudou depois do derrame. Conta da vida próspera que teve em São Paulo, da dedicação aos filhos que o deixaram, nem mais dão um telefone pra saber como ele está. Seu corpo ainda forte padece. Não só de Diabetes, nem Hipertensão, nem com as seqüelas do AVC, mas de tristeza, de solidão! Minhas palavras são o que ofereço, ressaltando sua lucidez, a benção de ter sobrevivido ao aneurisma. Mas no fundo penso se não era melhor ter perdido a vida de uma vez. Não aos poucos como por hora acontece!
Padece também de solidão Dona Nair. Na primeira consulta nem suspeitei, pensei tratar-se tão somente de mais uma paciente hipertensão e bronquítica. Na segunda soube que sua família havia ido toda pra São Paulo, todos os irmãos, ela jamais se casara, e os pais morreram. E avaliando mais atentamente percebi uma taquipnéia [respiração acelerada] que só aconteceu mediante a minha aproximação pra lhe examinar. E questionei no prontuário : “hipocondríaca?”. Na última consulta constatei. Não pude negar pra mim, muito menos pra ela : “Dona Nair, a senhora tem o pulmão perfeitamente saudável. Se brincar, melhor que o meu. Me diga? O que está acontecendo? A senhora está preocupada? Angustiada? Triste?” Ela não se abriu. Permaneceu renitente, mas percebeu que eu já percebi do que se trata seu problema. Apenas falou ao fim da consulta : “Você pode escrever esses remédios nessa receita? É que quando eu for no INSS eles precisam ver que tô tomando ele.” Não transcrevi. E confesso que ainda não sei se agi certo...
No fim-de-semana, preocupada com a congruência astral de vivenciar o dia 07/07/07 em pleno plantão, pus minhas orelhinhas em pé. E não foi à toa. A clínica cardiológica estava recheada de sobreviventes : sobreviventes de AVCs, sobreviventes de infartos, sobreviventes de arritmias e insuficiências cardíacas, sobreviventes de diabetes ... sobreviventes! Enfermaria repleta!!! Mas felizmente, o mal-presságio se concretizou no domingo. E bem distante dali. Os pacientes evoluíram bem. A morte tirou a vida de Dr. Gildo, médico de 48 anos, que já havia trabalhado lá na clínica, conhecido por sua rapidez : no centro cirúrgico e ao volante. Essa última lhe tirou a vida na estrada... Que encontre bom descanso e paz.
Acaba semana, acaba!
(Ibitiara-BA)
sexta-feira, 29 de junho de 2007
veinte y cinco años
Que aquela alegria ainda está comigo
E que a minha ternura não ficou na estrada
Não ficou no tempo presa na poeira
Eu apenas queria que você soubesse
Que esta menina hoje é uma mulher
E que esta mulher é uma menina
Que colheu seu fruto flor do seu carinho
Eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta
Que hoje eu me gosto muito mais
Porque me entendo muito mais também
E que a atitude de recomeçar é todo dia toda hora
É se respeitar na sua força e fé
E se olhar bem fundo até o dedão do pé
Eu apenas queira que você soubesse
Que essa criança brinca nesta roda
E não teme o corte de novas feridas
Pois tem a saúde que aprendeu com a vida...
(Gonzaguinha)
(Recife - PE)
(Gonzaguinha)
(Recife - PE)
quarta-feira, 20 de junho de 2007
pra[t]inha
Água também é mar
E aqui na praia
também é margem
Já que não é urgente
Aguente e sente
aguarde o temporal
Chuva também
é água do mar lavada
No céu imagem
Há que tirar o sapato
e pisar
Com tato nesse litoral
Gire a torneira,
perigas ver
Inunda o mundo,
o barco é você
Na distância, há de sonhar
Há de estancar
Gotas tantas não demora
Sede estranha
Água também é mar
E aqui na praia
também é margem ...
(Marisa Monte - Arnaldo Antunes Carlinhos Brown)
E aqui na praia
também é margem
Já que não é urgente
Aguente e sente
aguarde o temporal
Chuva também
é água do mar lavada
No céu imagem
Há que tirar o sapato
e pisar
Com tato nesse litoral
Gire a torneira,
perigas ver
Inunda o mundo,
o barco é você
Na distância, há de sonhar
Há de estancar
Gotas tantas não demora
Sede estranha
Água também é mar
E aqui na praia
também é margem ...
(Marisa Monte - Arnaldo Antunes Carlinhos Brown)
O fim-de-semana me deu de presente uma inusitada, bela, aconchegante e renovadora praia sertaneja por nome Pratinha. Litorânea desde sempre, andava me sentindo mais "peixe fora dágua" do que nunca pela distância do mar. O encontro com as águas da chapada misturadas ao som de linguas diversas, de sotaques diferentes, de bichos, do vento soprando entre as montanhas, e ao silêncio da Lapa Doce foi um presente há muito planejado e aguardado. Parece ter vindo em boa hora! Renovador!!!
(Chapada Diamantina - BA)
quarta-feira, 13 de junho de 2007
?
Entendeu? ... Nem eu!! Só lendo mesmo...
Posto a capa desse livro porque além de ser inusitado ver o cristo redentor estanpado na capa de um livro por título A Saga de um Baiano na Cidade de São Paulo, me faz lembrar das muitas histórias de tantos de baianos sertanejos que conhecem aquela terra mas nunca puseram o pé em Salvador. É ...
(Ibitiara-BA)
um casal e vários espantos
Alguém conhece algo mais desgastante, desanimador, entediante, que a rotina? Descobri por esses dias que além de todos estes efeitos a bendita ainda é capaz de nos tirar a percepção, o poder de observação. Sem percepção, sem sensibilidade para enxergar algo novo (ainda não descoberto) nas pessoas, nas relações, na paisagem, nas situações... Transformamo-nos em seres autômatos. Semi-máquinas capazes de fazer, fazer e fazer. Até podemos passar a fazer o de sempre de uma maneira melhor, mais ágil, mas dificilmente faremos de uma maneira diferente, que gere transformação.
Há dias não conseguia escrever. Pensamentos e sentimentos não me faltavam. Faltava sair da mesmice. Respirar. Pegar na água. Pedalar. Sentir o vento bater no rosto sem a zoada de qualquer motor por perto. Se entregar ao ócio e ao movimento criativo... Descansar. Porque a rotina trás um cansaço mental de dar dó!
Engraçado é que me pego lembrando que esses dias não fiz apenas “o de sempre”. E começo a achar que estou atribuindo à rotina algo que é fruto muito mais do cansaço. Disputas sobre quem é mais responsável à parte... esse “casal” é um saco! De maneira que tenho que tratar de me livrar deles e o triunvirato junino me ajudará nisso. Tomara!
Agora são vocês que devem estar entediados, né!? Com esse meu blá blá blá catártico. Vixi! Passemos aos fatos....
Semana passada aconteceu a II conferência municipal de Assistência Social. Durante as palestras me espanto com a exposição da coordenadora do Bolsa Família : “2.500 [duas mil e quinhentas] famílias beneficiadas no município”. O susto não foi automático. Levou o tempo do pensamento: se a população é cerca de 16mil habitantes, o que daria 4mil famílias, MAIS DA METADE das famílias recebem o benefício! “Recebem” não é a melhor palavra; correto é dizer “dependem”. O sertanejo depende do “programa de complementação de renda” do governo federal, assim como das chuvas, da remuneração dos donos da terra (por aqui algo em torno de R$10,00 por dia), e sobretudo do “Deus dará”! Espanta a força de uns, e a apatia de muitos. Espanta a imensidão de terra de uns, e a sequidão da terra de muitos. Espanta a ganância de uns às custas do sacrifício de muitos. Espanta saber que tanta riqueza é produzida, e ser tão pouco o que se devolve aos que deram uma vida. Espanta ver que o que deveria ser motivo de espanto se naturaliza, e ao se tornar natural se camufla na paisagem. Espanta ver tantos irem tentar buscar em terras longínquas a riqueza que deveriam poder tirar de sua própria terra, do seu lugar.
Era pra falar dos fatos mas virou catarse de novo... Pelo menos ficou poética. Acho!
Melhor parar por aqui e recorrer a outra arte que me traga inspiração às escrevinhanças...
Saudade d’ocês!
Há dias não conseguia escrever. Pensamentos e sentimentos não me faltavam. Faltava sair da mesmice. Respirar. Pegar na água. Pedalar. Sentir o vento bater no rosto sem a zoada de qualquer motor por perto. Se entregar ao ócio e ao movimento criativo... Descansar. Porque a rotina trás um cansaço mental de dar dó!
Engraçado é que me pego lembrando que esses dias não fiz apenas “o de sempre”. E começo a achar que estou atribuindo à rotina algo que é fruto muito mais do cansaço. Disputas sobre quem é mais responsável à parte... esse “casal” é um saco! De maneira que tenho que tratar de me livrar deles e o triunvirato junino me ajudará nisso. Tomara!
Agora são vocês que devem estar entediados, né!? Com esse meu blá blá blá catártico. Vixi! Passemos aos fatos....
Semana passada aconteceu a II conferência municipal de Assistência Social. Durante as palestras me espanto com a exposição da coordenadora do Bolsa Família : “2.500 [duas mil e quinhentas] famílias beneficiadas no município”. O susto não foi automático. Levou o tempo do pensamento: se a população é cerca de 16mil habitantes, o que daria 4mil famílias, MAIS DA METADE das famílias recebem o benefício! “Recebem” não é a melhor palavra; correto é dizer “dependem”. O sertanejo depende do “programa de complementação de renda” do governo federal, assim como das chuvas, da remuneração dos donos da terra (por aqui algo em torno de R$10,00 por dia), e sobretudo do “Deus dará”! Espanta a força de uns, e a apatia de muitos. Espanta a imensidão de terra de uns, e a sequidão da terra de muitos. Espanta a ganância de uns às custas do sacrifício de muitos. Espanta saber que tanta riqueza é produzida, e ser tão pouco o que se devolve aos que deram uma vida. Espanta ver que o que deveria ser motivo de espanto se naturaliza, e ao se tornar natural se camufla na paisagem. Espanta ver tantos irem tentar buscar em terras longínquas a riqueza que deveriam poder tirar de sua própria terra, do seu lugar.
Era pra falar dos fatos mas virou catarse de novo... Pelo menos ficou poética. Acho!
Melhor parar por aqui e recorrer a outra arte que me traga inspiração às escrevinhanças...
Saudade d’ocês!
(Ibitiara-BA)
domingo, 3 de junho de 2007
bla bla bla
Há dias em que palavras inexistem, ou se existem dispersam-se facilmente frente a qualquer tentativa de junção. Todos os pensamentos, sensações, vontades, vêm à mente, mas só olhos, ouvidos, tato, olfato e percepção / sensibilidade - sobretudo esta última - são capazes de transmitir o que se vivencia.
Hoje necessito falar, me expressar, mas sou capaz apenas de dizer dessa vontade e de largar algumas palavras e expressões : "ao deus dará" , "apatia" , mesmice , dependência , sistema , água aqui / seca acolá , vida , fome , ratos , homens , urubus , imensidão , piquenês , "o de sempre" , "mais de mesmo" , "tem mas tá faltando" , possibilidades , permacultura , ... , desencanto ,"pra onde vai tanta riqueza?" , "cumpadre meu Quelemém, me diga se penso bestagem?" , força dos braços / fraqueza da mente , novamente imensidão...
Amanhã quem sabe?
Por hora volto ao Guimarães Rosa!
Hoje necessito falar, me expressar, mas sou capaz apenas de dizer dessa vontade e de largar algumas palavras e expressões : "ao deus dará" , "apatia" , mesmice , dependência , sistema , água aqui / seca acolá , vida , fome , ratos , homens , urubus , imensidão , piquenês , "o de sempre" , "mais de mesmo" , "tem mas tá faltando" , possibilidades , permacultura , ... , desencanto ,"pra onde vai tanta riqueza?" , "cumpadre meu Quelemém, me diga se penso bestagem?" , força dos braços / fraqueza da mente , novamente imensidão...
Amanhã quem sabe?
Por hora volto ao Guimarães Rosa!
quinta-feira, 24 de maio de 2007
maio
Veio maio, que já vai indo, as árvores começaram a mudar de cor: de verde bem escuras passaram a verde claro e depois para amarelo-alaranjado, deixando a paisagem das estradas entre ibitiara, olhos dagua, santa quitéria, e tantos outros lugarejos desse meio-cerrado/meio-caatinga semelhantes aos cabelos meio-castanhos/meio-galegos desses caboclos de pele morena e olhos cor-de-mel. Mas nem tudo são folhas e cabelos ... nem flores!
Maio me trouxe o primeiro contato com a morte de um paciente na qualidade de médica assistente. Fosse 1 (um) já teria sido o bastante pra me deixar reflexiva por muitos dias, mas foram 2, dois no mesmo dia, num mesmo plantão, mais precisamente num intervalo de 4 horas dos mais marcantes de minha vida. Seu A... e dona C... padeciam de males diferentes. Ele chegou caminhando ao consultório, apesar de muito cansado. Ela encontrei já moribunda sobre o leito. Ambos me esfregaram na face o contato com a morte e com o preenchimento das primeiras declarações de óbito assinadas por mim. Ambos me ensinaram que carros de ressuscitação cardíaca, eletrocardiogramas, oxímetros de pulsos, ou meras ampolas de vasoativos são privilégios longíquos aos sertanejos e sertanejas que doão a vida ao trato com a terra e com os animais fazendo chegar alimentos às mesas dos grandes centros urbanos equipados com máquinas e guarnecidos de drogas para salvaguardar a vida dos que têm acesso a bons serviços de saúde, pagos ou mediante o nosso SUS. Bateu a sensação da velha impotência mas nem tempo tive para pensar na hora: havia mais unas 15 pessoas aguardando atendimento. Digerir a situação e fazer essas reflexões só me foi possível horas depois. O que me acalmou foi Adelle dizer que tratava-se apenas da “maldição do primeiro plantão” de Boninal; ao menos foi assim com ela também ... Agitado! Ossos do ofício ... mas sobretudo retratos da realidade da saúde do Brasil : ainda há muito por fazer... Melhoramos embora ainda estejamos distantes da dignidade para todos!
Mas entre os espinhos brotam folhas e flores, e o mês de maio nos trouxe uma unidade de saúde da família novinha para atender mais 700 famílias. Por enquanto falta-nos apenas energia. Apenas deve ser o que pensa o povo da Coelba (companhia “bahiana” de energia elétrica) que não tratou de fazer a ligação da rede ainda!!! Afff... [*”bahiana” entre aspas porque assim como a Celpe foi vendida para o grupo Iberdrola, que eu nem sei mais se é espanhol; vendem-se tão facilmente as empresas hoje em dia que a feira do troca tá perdendo!] Aos poucos vamos arrumando a casa... e descubro que nem sempre as instituições para funcionar seguem os caminhos protocolares ... mas essa parte da história é coisa pra conversas ‘ao vivo’.
Ainda não me acostumei com um hábito das bandas de cá: deixar de chamar os mais velhos por Seu ou Dona. Não tem jeito! O povo chama Seu Eduardo (50 e tantos anos) de Eduardinho, apenasmente. Ou Dona Gildete (70 e muitos anos) de Dete. Tento, tento, mas quando vejo ... tô chamando de Seu e Dona, e pronto! Mas tenho me adaptado bem, e tanto que comecei a demorar mais para perceber essas diferenças culturais, e passei a ficar chateada quando Lorena fica comparando as coisas daqui com as da cidade dela puxando a sardinha pro lado de lá. E olha a megalópole que é a cidade dela: Ibipitanga! Alguém já ouviu falar? Alguém?!! Não vale tia Alba... Hehehehehe À propósito: Lorena é a enfermeira que trabalha comigo.
Maio me trouxe o primeiro contato com a morte de um paciente na qualidade de médica assistente. Fosse 1 (um) já teria sido o bastante pra me deixar reflexiva por muitos dias, mas foram 2, dois no mesmo dia, num mesmo plantão, mais precisamente num intervalo de 4 horas dos mais marcantes de minha vida. Seu A... e dona C... padeciam de males diferentes. Ele chegou caminhando ao consultório, apesar de muito cansado. Ela encontrei já moribunda sobre o leito. Ambos me esfregaram na face o contato com a morte e com o preenchimento das primeiras declarações de óbito assinadas por mim. Ambos me ensinaram que carros de ressuscitação cardíaca, eletrocardiogramas, oxímetros de pulsos, ou meras ampolas de vasoativos são privilégios longíquos aos sertanejos e sertanejas que doão a vida ao trato com a terra e com os animais fazendo chegar alimentos às mesas dos grandes centros urbanos equipados com máquinas e guarnecidos de drogas para salvaguardar a vida dos que têm acesso a bons serviços de saúde, pagos ou mediante o nosso SUS. Bateu a sensação da velha impotência mas nem tempo tive para pensar na hora: havia mais unas 15 pessoas aguardando atendimento. Digerir a situação e fazer essas reflexões só me foi possível horas depois. O que me acalmou foi Adelle dizer que tratava-se apenas da “maldição do primeiro plantão” de Boninal; ao menos foi assim com ela também ... Agitado! Ossos do ofício ... mas sobretudo retratos da realidade da saúde do Brasil : ainda há muito por fazer... Melhoramos embora ainda estejamos distantes da dignidade para todos!
Mas entre os espinhos brotam folhas e flores, e o mês de maio nos trouxe uma unidade de saúde da família novinha para atender mais 700 famílias. Por enquanto falta-nos apenas energia. Apenas deve ser o que pensa o povo da Coelba (companhia “bahiana” de energia elétrica) que não tratou de fazer a ligação da rede ainda!!! Afff... [*”bahiana” entre aspas porque assim como a Celpe foi vendida para o grupo Iberdrola, que eu nem sei mais se é espanhol; vendem-se tão facilmente as empresas hoje em dia que a feira do troca tá perdendo!] Aos poucos vamos arrumando a casa... e descubro que nem sempre as instituições para funcionar seguem os caminhos protocolares ... mas essa parte da história é coisa pra conversas ‘ao vivo’.
Ainda não me acostumei com um hábito das bandas de cá: deixar de chamar os mais velhos por Seu ou Dona. Não tem jeito! O povo chama Seu Eduardo (50 e tantos anos) de Eduardinho, apenasmente. Ou Dona Gildete (70 e muitos anos) de Dete. Tento, tento, mas quando vejo ... tô chamando de Seu e Dona, e pronto! Mas tenho me adaptado bem, e tanto que comecei a demorar mais para perceber essas diferenças culturais, e passei a ficar chateada quando Lorena fica comparando as coisas daqui com as da cidade dela puxando a sardinha pro lado de lá. E olha a megalópole que é a cidade dela: Ibipitanga! Alguém já ouviu falar? Alguém?!! Não vale tia Alba... Hehehehehe À propósito: Lorena é a enfermeira que trabalha comigo.
Os passeios de bicicleta continuam de pé embora menos frequentes por causa da carga de trabalho e de algumas avarias na máquina que me renderam 2 idas a concertos. Vixiii!!! Mas pelo menos me “associei” à biblioteca particular de dona Leopoldina que conta com um acervo interessantíssimo :)
Só tenho que tomar vergonha de 2 coisas: não vi quase nada das belezas turísticas da chapada diamantina, nem tirei fotos daqui :P Mas providenciarei minha retração comigo mesma logo-logo! ;)
De resto... muita saudade de vocês, da praia [sempre que vou em salvador está chovendo :( ], do sotaque, de bolo-de-rolo, de tapioca, das rodas de conversas, ...
Muitos chêros e abraços!!! Me liguem seus falsos [exceto Rapha, painho, mainha, tia Aleide e Kádimo] , se eu for ligar pra todos vocês viro sócia da Oi !!! Ou pelo menos mandem emails. Aqui pega, já notaram :P:P:P Hehehehehe
Chêro grande! Abraços maiores ainda!!!!!
PS : “A emenda 3 ainda não desemendou mas já vivo sob seus efeitos”
Escrita em 24 de maio de 2007 (Ibitiara-BA).
b-i-c-i-c-l-ê-tê-a
Não passou da primeira semana. Conforme planejado e desejado, na primeira sexta-feira em Ibitiara - 13 de Abril - comprei minha magrela numa das 3 lojas de eletrodomésticos da cidade: Eletrônica Pereira! Roxa com prata, quadro feminino, cestinha, bagageiro, protetor de corrente e paralamas... Linda!
Empolgada fui mostrar a Dona Leopoldina achando que movimentaria o fim-de-tarde da minha primeira anfitriã, agora vizinha de rua, e ela falou:
- É né, minha filha! Começa assim... mas daqui a uns dias vocês compra um carrinho.
Conversamos um bocado, ela contando histórias dela no Rio, inclusive de uma senhora de posses que andava de bicicleta, mas fiquei com aquela primeira frase na cabeça...
Ser médica no interior é diferente. Sobretudo pelo "a" no final: medicA. Na primeira reunião com os agentes comunitários de saúde, sem jaleco, sem salto alto, falando de igual pra igual, não exitaram em dizer que pensaram que eu fosse assistente social. Atendendo pacientes não é raro ouvir: "Mas tão novinha!!!" Adotei então o jaleco de volta, e o anel de formatura. Não me renderei a saltos-alto facilmente. Isso não!
Fim-de-semana passado fui pra Salvador visitar Nau e Lua, e resolver minha transferência pro Cremeb. Percebi melhor o quanto gosto, ou me acostumei, à rotina das cidades grandes. Poder andar como mais alguém na multidão, sem se preocupar, sem importar se tem diploma, se é mulher, se é preto ou branco... Também tava sentindo falta de movimentação, barulho, e sobretudo de atividades de lazer e cultura.
Fomos à Bienal do livro, muito legal embora esperasse mais. No sábado a noite, me preparando pra viagem do outro dia cedinho, comecei a sentir falta de passar mais um tempo ali, poder ir ao cinema, ou teatro, à um show... Às 10 pras 8hs decidi, e desci do apartamento pra pegar a peça "Vixe Maria : Deus e o Diabo na Bahia" que começava às 8horas, no ACBEU. Claro que não tinha mais ingressos...mas falando da minha situação de "isolamento cinemato-teatrístico" para a coordenadora do espetáculo, ela conseguiu um lugarzinho pra mim :) Excelente!!! Depois conto pra vocês o enredo... Me acabei de rir. Muito mesmo. No final me arrepiei ao som "Chame Gente", de Moraes Moreira ( "Ah, imagina só, que loucura que é essa mistura. Alegria, alegria é o estado que chamamos Bahia. De todos os santos, encantos e axés. Sagrado e profano o bahiano é ..." ) E ontem descobri uma expressão pra definir como ando me sentindo: peba. Mas peba no bom sentido; não de coisa sem valor, de má qualidade, etc. Peba, de pe + ba, pernambuco + bahia. [tia Udeilda prefere dizer pernambahiana]
Ainda tenho o costume de comparar as coisas mas vou procurar parar com isso porque tenho percebido que vendo, exercitando a empatia, entenderei melhor as pessoas/costumes/necessidades do que através da comparação. Melhor recorrer à história do que à comparação entre culturas.
Hoje saio do meu primeiro plantããããooo [hein, pai?] em Seabra de volta a Ibitiara. Último dia de Micareta. A micareta da paz. Em outros lugares a gente diz : "a cidade pára por causa da festa"; lá a gente diz "a cidade se movimenta por causa da festa". Mas será que a doutora pode dançar axé em praça pública? Me arrisco não. Até porque tô desatualizada nos passinhos. Vou me ater a arriscar andar de bicicleta que já anda chamando bem a atenção dos ibitiarenses. Pelo menos é sinal de cuidado com a saúde ;)
"Corpo ao vento, pensamento solto pelo ar,
Pra isso acontecer basta você me pedalar,
b-i-c-i-c-l-ê-tê-a
sou sua amiga bicicleta"
"Corpo ao vento, pensamento solto pelo ar,
Pra isso acontecer basta você me pedalar,
b-i-c-i-c-l-ê-tê-a
sou sua amiga bicicleta"
(Toquinho)
Beijos, beijos.
Saudades!
Beijos, beijos.
Saudades!
Escrita em 29 de Abril de 2007 (Ibitiara-BA)
grande sertão
Há 10 dias em solos sertanejos. Tempo suficiente para perceber que a vida caminha em ritmo diferente. Logo que cheguei me impacientava com a falta de pressa das pessoas. Mesmo sem me dar conta, inicialmente, ficava me perguntando "como podem não ter pressa desse jeito?!" Será que o mito da bahianidade é verdade, e não mito?!
Mas o povo daqui em quase nada se assemelha aos bahianos do recôncavo; à bahianidade midiaticamente propagada. No falar, no andar, no agir, no olhar ... mais parecem mineiros. Aqui ou ali escuta-se um "môça!", "quentim!", e por ai vai. Engolem-se as vogais da última sílaba das palavras. Olham-nos desconfiados. Falar alto? Ainda não encontrei esse! Começo a achar que o sertão de cerrado que se estende de minas até as bandas de cá, e outras bandas à oeste, abriga uma mesma população em termos sócio-culturais!!! Mas antes de mim, muito antes de mim, descobriu isso João Guimarães Rosa. Mas ainda há muito por ser descoberto, vivido.
Logo acontecem os primeiros choques linguísticos : macaxeira aqui chamam aipim, jerimum é abóbora, massa puba é povilho, e não ouse chamar jaleco de bata. Afora o sotaque, as interjeições, e outras coisinhas que se revelam coisonas! Outro choque é o fato de ninguém, absolutamente ninguém, conseguir te explicar como chegar de um lugar para o outro. Mesmo o lugar sendo na rua seguinte, ou por mais simples que seja o caminho, todos ou apontam dizendo que é melhor que vá com ele/ela ou com alguém que saiba ir, ou te levam no lugar! Uma vez quase perco a paciência... respirei fundo, e pensei comigo mesma "paciência! respira! pergunta de outro jeito. tenta de novo"... Aos poucos vou entendendo o lugar, as pessoas. E descobrindo o quão forte é a formação cultural do ser humano; sentindo na própria carne, nas próprias idéias.
O que mais tô gostando é do clima (friozinhooo) e do tempo... Há tempo pra tirar um dedo de prosa despretensiosamente, pra olhar o horizonte e descobrir uma paisagem nova, pra respirar melhor...
Sobre o trabalho...
Alessandra, coordenadora da atenção básica e Lorena, a enfermeira que será da mesma equipe que eu, foram alunas de tia Alba na UESB! Mais um motivo pra me considerar em casa. :) As duas são muito comprometidas, corretas e não fazem corpo mole pro trabalho. Tô gostando :)
Durante esses dias estou fazendo apenas atendimentos ambulatoriais aqui na sede do município (na UBS) e em Olhos Dágua do Seco, num pequeno consultório. Olhos Dágua é um dos 3 maiores distritos daqui. Semana que vem faremos as primeiras reuniões com a equipe completa entre si e com a comunidade para que todos compreendam a proposta da estrategia de saúde da família. Hoje participei da reunião do Conselho Municipal de Saude e foi bem aceito o informe de que pretendemos ter um conselho local funcionando na nossa unidade. Em maio, se tudo correr como previsto e no ritmo que estamos, a unidade começa a funcionar! =) A estrutura é toda nova, dentro das normas do Ministério da Saúde e tudo mais. Quem sabe Jaques Wagner vem pra inauguração?!!! :P Hauhauhauhau O povo PLlista, carlista, daqui ia estribuchar!!!! Mas política no interior é um capítulo à parte que se der vontade escrevo num outro email...
Beijos para tod@s : meninas, mulheres, meninos e homens!!!
Saudades.
Mas o povo daqui em quase nada se assemelha aos bahianos do recôncavo; à bahianidade midiaticamente propagada. No falar, no andar, no agir, no olhar ... mais parecem mineiros. Aqui ou ali escuta-se um "môça!", "quentim!", e por ai vai. Engolem-se as vogais da última sílaba das palavras. Olham-nos desconfiados. Falar alto? Ainda não encontrei esse! Começo a achar que o sertão de cerrado que se estende de minas até as bandas de cá, e outras bandas à oeste, abriga uma mesma população em termos sócio-culturais!!! Mas antes de mim, muito antes de mim, descobriu isso João Guimarães Rosa. Mas ainda há muito por ser descoberto, vivido.
Logo acontecem os primeiros choques linguísticos : macaxeira aqui chamam aipim, jerimum é abóbora, massa puba é povilho, e não ouse chamar jaleco de bata. Afora o sotaque, as interjeições, e outras coisinhas que se revelam coisonas! Outro choque é o fato de ninguém, absolutamente ninguém, conseguir te explicar como chegar de um lugar para o outro. Mesmo o lugar sendo na rua seguinte, ou por mais simples que seja o caminho, todos ou apontam dizendo que é melhor que vá com ele/ela ou com alguém que saiba ir, ou te levam no lugar! Uma vez quase perco a paciência... respirei fundo, e pensei comigo mesma "paciência! respira! pergunta de outro jeito. tenta de novo"... Aos poucos vou entendendo o lugar, as pessoas. E descobrindo o quão forte é a formação cultural do ser humano; sentindo na própria carne, nas próprias idéias.
O que mais tô gostando é do clima (friozinhooo) e do tempo... Há tempo pra tirar um dedo de prosa despretensiosamente, pra olhar o horizonte e descobrir uma paisagem nova, pra respirar melhor...
Sobre o trabalho...
Alessandra, coordenadora da atenção básica e Lorena, a enfermeira que será da mesma equipe que eu, foram alunas de tia Alba na UESB! Mais um motivo pra me considerar em casa. :) As duas são muito comprometidas, corretas e não fazem corpo mole pro trabalho. Tô gostando :)
Durante esses dias estou fazendo apenas atendimentos ambulatoriais aqui na sede do município (na UBS) e em Olhos Dágua do Seco, num pequeno consultório. Olhos Dágua é um dos 3 maiores distritos daqui. Semana que vem faremos as primeiras reuniões com a equipe completa entre si e com a comunidade para que todos compreendam a proposta da estrategia de saúde da família. Hoje participei da reunião do Conselho Municipal de Saude e foi bem aceito o informe de que pretendemos ter um conselho local funcionando na nossa unidade. Em maio, se tudo correr como previsto e no ritmo que estamos, a unidade começa a funcionar! =) A estrutura é toda nova, dentro das normas do Ministério da Saúde e tudo mais. Quem sabe Jaques Wagner vem pra inauguração?!!! :P Hauhauhauhau O povo PLlista, carlista, daqui ia estribuchar!!!! Mas política no interior é um capítulo à parte que se der vontade escrevo num outro email...
Beijos para tod@s : meninas, mulheres, meninos e homens!!!
Saudades.
Escrita em 18 de abril de 2007 (Ibitiara-BA).
acolher-te é o nosso dever
Fim de tarde de sábado de páscoa. Depois de muito chão, paisagens lindas avistadas pela janela do carro e um único erro de percurso [nosso "controlador de vôo" não estava de greve mas deu bobeira] chegamos a Ibitiara recebidos pelo portal com essa frase : "acolher-te é o nosso dever". Fala com um, pergunta a outro, anda mais um pouquinho... chegamos ao hotel são jorge - uma casa modesta adiministrada por dona Leopodina, senhora cujo tempo de vida não apagou a beleza nem a memória. Logo nas primeiras conversas despejou todos seus conhecimentos sobre a história do Brasil ao saber que assim como tio Gunga tivera sido funcionária da Petrobrás. Deixamos os 'panos de bunda' e fomos voltear pela cidade.
Localizada entre montanhas, Ibitiara possui todas as casas de alvenaria, todas as ruas calçadas, saneadas e com iluminação pública. Até onde tem casa, tem calçamento. E nem pensem que é uma rua central e meia duzia de transversais formando um lugarejo qualquer. No meio da cidade tem uma lagoa protegida por uma mureta para que os motoristas mais devisados e os pedestres mais ébrios não tchibunguem água adentro. Ao redor várias ruas dispostas aleatoriamente. Casa pra todos os gostos. Muro alto, cerca elétrica, grades, anúncios de cão de guarda? Nem pensar. A paz reina! Dormir de janelas e portas abertas não é coisa do outro mundo. Fecha-se para se protejer do frio ou da chuva, mas não dos seres humanos.
Minha casa sem número fica ao lado da secretaria de saúde. Na praça da catedral enorme construida pela Padre Aldo Coopola, dono do hospital filantrópico do municipio e pai de muitos filhos. Isso mesmo: pai de muitos filhos!!! Andei sabendo que não é o único clérico-pai da região... O nome da Praça "Pró-XX" é marca deixada pela 'brigada' do projeto Rondon que cá esteve nos idos dos anos 70. Descendo a rua chegamos à prefeitura, ladeada pelo Bar do Luiz, empresário de fim-de-semana e vigilante do Banco do Brasil. O Banco fica do outro lado da ponte sobre a lagoa. Pertinho tem : a agencia do Correio [que também é agencia do Bradesco], a lotérica, um supermercado, um armarinho, uma loja de confecções e outros comércios menores. Ainda não comprei minha bicicleta mas de amanhã não passa.
Esses dias foram dedicados a conhecer o lugar e as pessoas, acertos de trabalho e mudança. Já tenho meu quarto, com guarda-roupa, cama e uma varandinha legal. A casa é pequena mas tem primeiro andar. O mais legal é a paisagem [embora tenham outros lugares em termos de paisagem na cidade] e minha companheira de moradia e trabalho: Roberta, enfermeira da unidade de saúde daqui da sede do municipio. Gente finissima! Simples, sem frescura, ativa, comprometida com o trabalho, e, assim como eu, tem 24 anos e adora cantar nas horas vagas.
Já conheci meio-mundo de gente na cidade, e ja conheci também o municipio vizinho [Seabra] onde trabalharei alguns fins-de-semana. O povo daqui renderá uns e-mails à parte, mas vocês têm algo comum : vocês se espantam porque que eu vim pra cá, eles se espantam porque que eu vim dai !!!
Ao meu irmão puliça e ao meu pliminho juju [depois de pegar ar - hauhauhauhauahau - vocês num prestam] digo apenas que tragam os apetrechos que queiram, mas despreocupem-se com cadeados, grades, coletes a prova de balas, e outros utensílios necessários à vida na selva de pedras que se tornaram nossas capitais. E venham me visitar logo, seus alminhas, que já tô com saudade :P
Chêro grande.
Escrita em 12 de abril de 2007.
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