
Pra onde se olhava era marrom, de vários tons - e muita, muita poeira. Foi assim por alguns meses. Dez dias de chuva, um atolamento e três dias de sol depois o verde começa a tomar conta de tudo. As primaveras floriram um amarelo mais intenso que o do ipê. É tempo de plantar! Arar a terra com carro de boi. Semear milho e feijão. O gado que já exibia as costelas e andava léguas pra tentar matar a sede agora como capim novinho-novinho, e os açudes todos se encheram.
Há muito não escrevia pro Diário. O que dizer não faltou. Mas quando as palavras não me brotam com fluência prefiro não insistir. Talvez tenha sido as férias que dei pra magrela - pedalar me inspira. Nem sei por que dei, mas foi sendo assim.
Nesse meio tempo a equipe do PSF mudou, eu mudei, painho e mainha se mudaram, meu tio está mudando (amém), Dezza casou, Gardênia nasceu, a luz do Posto acendeu, e a colônia Ibitiarense cresceu: seja bem-vinda Delle!!!
O tempo passa! Mas Einstein diria que é a gente que acha que ele passa, porque na verdade ele é. Questões físicas à parte... Depois de amanhã eu e os amigos/colegas da turma 110 completamos um ano de formatura. Parece que foi ontem. Começo a aprender o que é ser médica – um dia o serei em plenitude! Percebo que tive grandes mestres mas a universidade carece de muitos mais. Sinto saudades dos poucos que encontrei. Hoje os tenho nas pessoas que cuido. Vejam que figuras:
Hoje consultei pela décima terceira vez Dona Rita. Isso mesmo: treze consultas num intervalo de seis meses; cada uma delas com duração de no mínimo vinte minutos. Além de hipertensa e diabética, é tarada por tudo que não pode comer. Fora as reavaliações de rotina essas idas e vindas se dão por causa de sucessivas “crises de mal-estar”. Lá pra quinta consulta comecei a perceber que as crises ocorriam quando a glicemia dela normalizava (dentro dos parâmetros oficiais). Hoje foi ao atendimento queixando-se de mal-estar e com a glicemia normal. Mais uma vez reduzi as medicações do diabetes e lhe disse: “Não vamos mais controlar seu diabetes e sim seu bem-estar. A senhora vai ficar bem e com a glicose um pouquinho alta sem maiores problemas.”
Alguns dias atrás uma senhora de 70 e muitos anos chega pra consulta sozinha, senta, lhe dou bom-dia, pergunto como está se sentindo, ela levanta e, quase alcançando os pés com as pontas dos dedos das mãos sem dobrar os joelhos, diz: “é que quando eu faço assim dói aqui no fim das costas”.
Me esforço pra lembrar de outros tantos casos mas já não consigo mais recolher histórias transmitindo o tom pitoresco como antes. Penso que meu ouvir e meu olhar percebem de outra maneira o que me mostram e dizem as pessoas. Consigo ser mais empática, e menos crítica aos relatos que me fazem. Deve haver uma explicação/expressão antropológica pra isso, a que me vem à mente é: participo desse lugar.
Por fim deixo as palavras do poeta João Paraibano:
Há muito não escrevia pro Diário. O que dizer não faltou. Mas quando as palavras não me brotam com fluência prefiro não insistir. Talvez tenha sido as férias que dei pra magrela - pedalar me inspira. Nem sei por que dei, mas foi sendo assim.
Nesse meio tempo a equipe do PSF mudou, eu mudei, painho e mainha se mudaram, meu tio está mudando (amém), Dezza casou, Gardênia nasceu, a luz do Posto acendeu, e a colônia Ibitiarense cresceu: seja bem-vinda Delle!!!
O tempo passa! Mas Einstein diria que é a gente que acha que ele passa, porque na verdade ele é. Questões físicas à parte... Depois de amanhã eu e os amigos/colegas da turma 110 completamos um ano de formatura. Parece que foi ontem. Começo a aprender o que é ser médica – um dia o serei em plenitude! Percebo que tive grandes mestres mas a universidade carece de muitos mais. Sinto saudades dos poucos que encontrei. Hoje os tenho nas pessoas que cuido. Vejam que figuras:
Hoje consultei pela décima terceira vez Dona Rita. Isso mesmo: treze consultas num intervalo de seis meses; cada uma delas com duração de no mínimo vinte minutos. Além de hipertensa e diabética, é tarada por tudo que não pode comer. Fora as reavaliações de rotina essas idas e vindas se dão por causa de sucessivas “crises de mal-estar”. Lá pra quinta consulta comecei a perceber que as crises ocorriam quando a glicemia dela normalizava (dentro dos parâmetros oficiais). Hoje foi ao atendimento queixando-se de mal-estar e com a glicemia normal. Mais uma vez reduzi as medicações do diabetes e lhe disse: “Não vamos mais controlar seu diabetes e sim seu bem-estar. A senhora vai ficar bem e com a glicose um pouquinho alta sem maiores problemas.”
Alguns dias atrás uma senhora de 70 e muitos anos chega pra consulta sozinha, senta, lhe dou bom-dia, pergunto como está se sentindo, ela levanta e, quase alcançando os pés com as pontas dos dedos das mãos sem dobrar os joelhos, diz: “é que quando eu faço assim dói aqui no fim das costas”.
Me esforço pra lembrar de outros tantos casos mas já não consigo mais recolher histórias transmitindo o tom pitoresco como antes. Penso que meu ouvir e meu olhar percebem de outra maneira o que me mostram e dizem as pessoas. Consigo ser mais empática, e menos crítica aos relatos que me fazem. Deve haver uma explicação/expressão antropológica pra isso, a que me vem à mente é: participo desse lugar.
Por fim deixo as palavras do poeta João Paraibano:
“Quando chove no sertão
O sol deita e água rola
O sapo vomita espuma
Onde um boi pisa se atola
E a fartura esconde o saco
Onde a fome pedia esmola”
O sol deita e água rola
O sapo vomita espuma
Onde um boi pisa se atola
E a fartura esconde o saco
Onde a fome pedia esmola”
(Ibitiara-BA)
3 comentários:
manda beijo, Manda.
Minha última:
Cortando Mata na Zona da Lua
Não vim aqui falar de Juás. Nem do cinza e do marrom que enfileiram as pedras rumo ao Noroeste. Não vim aqui falar do pranto que desaba em cima da Gávea, revelando o cheiro de bairro bom. Nem também vim falar da desenvoltura e da segurança com que um cubano subiu num palco em Recife, achando teclas em escalas de vento. Não vim aqui falar. Definitivamente.
Vim silenciar, na minha escrita, a minha paixão irremediável pela vida que brisa meu rosto. E que me faz abrir sorriso à espera de atravessar a rua, embaixo de chuva, ao perceber que um menino de braço está ali, enternecido com os dizeres da minha camisa. E me faz, sem piedade alguma, estalar meu desejo na carne-de-sol que desmancha na aurora da Campina, devidamente acompanhada de um inhame já muito acarinhado por beijos de manteiga, que também se desmancha.
Desmanchar-se é a solução da humanidade! Devemos nos permitir borrar nossa visão em cada esquina e apertar a mão do divino das coisas. Entusiasticamente, pedra por pedra. E então, quando tudo se embelecer, graças ao nosso olhar, lasso de amor, acordaremos cantando qualquer sofrimento que adormeça. Seja qual for o subterrâneo da tristeza. Profundidade e altura são apenas dimensões, e a paixão pela vida que brisa meu rosto é adimensional.
Poderíamos, então, contemplar a dança do polvos gigantes do Oceano Índico através dos olhículos de um tubarão-martelo. Ou, quem sabe, aproveitar a visão condoreira do albatroz do baiano Castro, que assim pôde chegar mais perto das atrocidades do Navio.
No entanto o importante, o importante mesmo é desmanchar-se, pois amar é a nossa única vocação; a paixão, nosso religare e, obviamente, não se deve permitir rimar com ilusão, como os infelizes costumam alardear. Os sem-graça não acham graça na vida.
Abrirei mão e falarei dos Juás. Cortando caminho, de Campina Grande a Recife, passando por Itabaiana, percebemos, eu e meu amigo retratista, um extenso plantio de frondosas que respeitavam muito o espaço de cada uma. Centenas, de mão a mão. Paramos e atrapalhamos o descanso de uma família de bois que comungavam uma sesta sagrada embaixo de uma dessas copas. Pé de quê? Rapaz, pé de quê?
Insatisfeitos com a dúvida, semente da luz dos homens, interrompemos a cavalgada de um juaense. Trajado de couro, selado num jumento:
- É Juá. Serve pra tosse, canseira, brucelose, tudo. – apontando para os lados:
- Tem é muito por aqui.
Era o encontro entre dois planetas, porém que giravam naquele instante em torno do mesmo encantamento. Juás. A dar com o pau.
Mas não vim aqui para falar. Não vim.
Dedico esta crônica ao Diretor (Gilson Fernandes), o novo médico-macaco, que me lançou às estradas dos Juás; ao meu querido retratista Atinho, o Gila Boy (Giliate Cardoso Neto). Também ao meu querido Robin, o menino prodígio (Paulo Paes), que nos embalou com suas canções nas tais estradas. “Muito profundo e triste para um menino de dezoito anos”, confidenciou o Atinho.
Alfredo de Oliveira Neto
Rio, no sombrio castelo da UERJ, novembro de 2007
Nunca é tarde pra agradecer...
Obrigada pela partilha, amigo Alfredo! Xêro grande...
Postar um comentário