quarta-feira, 13 de junho de 2007

um casal e vários espantos

Alguém conhece algo mais desgastante, desanimador, entediante, que a rotina? Descobri por esses dias que além de todos estes efeitos a bendita ainda é capaz de nos tirar a percepção, o poder de observação. Sem percepção, sem sensibilidade para enxergar algo novo (ainda não descoberto) nas pessoas, nas relações, na paisagem, nas situações... Transformamo-nos em seres autômatos. Semi-máquinas capazes de fazer, fazer e fazer. Até podemos passar a fazer o de sempre de uma maneira melhor, mais ágil, mas dificilmente faremos de uma maneira diferente, que gere transformação.

Há dias não conseguia escrever. Pensamentos e sentimentos não me faltavam. Faltava sair da mesmice. Respirar. Pegar na água. Pedalar. Sentir o vento bater no rosto sem a zoada de qualquer motor por perto. Se entregar ao ócio e ao movimento criativo... Descansar. Porque a rotina trás um cansaço mental de dar dó!

Engraçado é que me pego lembrando que esses dias não fiz apenas “o de sempre”. E começo a achar que estou atribuindo à rotina algo que é fruto muito mais do cansaço. Disputas sobre quem é mais responsável à parte... esse “casal” é um saco! De maneira que tenho que tratar de me livrar deles e o triunvirato junino me ajudará nisso. Tomara!

Agora são vocês que devem estar entediados, né!? Com esse meu blá blá blá catártico. Vixi! Passemos aos fatos....
Semana passada aconteceu a II conferência municipal de Assistência Social. Durante as palestras me espanto com a exposição da coordenadora do Bolsa Família : “2.500 [duas mil e quinhentas] famílias beneficiadas no município”. O susto não foi automático. Levou o tempo do pensamento: se a população é cerca de 16mil habitantes, o que daria 4mil famílias, MAIS DA METADE das famílias recebem o benefício! “Recebem” não é a melhor palavra; correto é dizer “dependem”. O sertanejo depende do “programa de complementação de renda” do governo federal, assim como das chuvas, da remuneração dos donos da terra (por aqui algo em torno de R$10,00 por dia), e sobretudo do “Deus dará”! Espanta a força de uns, e a apatia de muitos. Espanta a imensidão de terra de uns, e a sequidão da terra de muitos. Espanta a ganância de uns às custas do sacrifício de muitos. Espanta saber que tanta riqueza é produzida, e ser tão pouco o que se devolve aos que deram uma vida. Espanta ver que o que deveria ser motivo de espanto se naturaliza, e ao se tornar natural se camufla na paisagem. Espanta ver tantos irem tentar buscar em terras longínquas a riqueza que deveriam poder tirar de sua própria terra, do seu lugar.

Era pra falar dos fatos mas virou catarse de novo... Pelo menos ficou poética. Acho!
Melhor parar por aqui e recorrer a outra arte que me traga inspiração às escrevinhanças...
Saudade d’ocês!
(Ibitiara-BA)

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