quinta-feira, 24 de maio de 2007

maio

Veio maio, que já vai indo, as árvores começaram a mudar de cor: de verde bem escuras passaram a verde claro e depois para amarelo-alaranjado, deixando a paisagem das estradas entre ibitiara, olhos dagua, santa quitéria, e tantos outros lugarejos desse meio-cerrado/meio-caatinga semelhantes aos cabelos meio-castanhos/meio-galegos desses caboclos de pele morena e olhos cor-de-mel. Mas nem tudo são folhas e cabelos ... nem flores!

Maio me trouxe o primeiro contato com a morte de um paciente na qualidade de médica assistente. Fosse 1 (um) já teria sido o bastante pra me deixar reflexiva por muitos dias, mas foram 2, dois no mesmo dia, num mesmo plantão, mais precisamente num intervalo de 4 horas dos mais marcantes de minha vida. Seu A... e dona C... padeciam de males diferentes. Ele chegou caminhando ao consultório, apesar de muito cansado. Ela encontrei já moribunda sobre o leito. Ambos me esfregaram na face o contato com a morte e com o preenchimento das primeiras declarações de óbito assinadas por mim. Ambos me ensinaram que carros de ressuscitação cardíaca, eletrocardiogramas, oxímetros de pulsos, ou meras ampolas de vasoativos são privilégios longíquos aos sertanejos e sertanejas que doão a vida ao trato com a terra e com os animais fazendo chegar alimentos às mesas dos grandes centros urbanos equipados com máquinas e guarnecidos de drogas para salvaguardar a vida dos que têm acesso a bons serviços de saúde, pagos ou mediante o nosso SUS. Bateu a sensação da velha impotência mas nem tempo tive para pensar na hora: havia mais unas 15 pessoas aguardando atendimento. Digerir a situação e fazer essas reflexões só me foi possível horas depois. O que me acalmou foi Adelle dizer que tratava-se apenas da “maldição do primeiro plantão” de Boninal; ao menos foi assim com ela também ... Agitado! Ossos do ofício ... mas sobretudo retratos da realidade da saúde do Brasil : ainda há muito por fazer... Melhoramos embora ainda estejamos distantes da dignidade para todos!

Mas entre os espinhos brotam folhas e flores, e o mês de maio nos trouxe uma unidade de saúde da família novinha para atender mais 700 famílias. Por enquanto falta-nos apenas energia. Apenas deve ser o que pensa o povo da Coelba (companhia “bahiana” de energia elétrica) que não tratou de fazer a ligação da rede ainda!!! Afff... [*”bahiana” entre aspas porque assim como a Celpe foi vendida para o grupo Iberdrola, que eu nem sei mais se é espanhol; vendem-se tão facilmente as empresas hoje em dia que a feira do troca tá perdendo!] Aos poucos vamos arrumando a casa... e descubro que nem sempre as instituições para funcionar seguem os caminhos protocolares ... mas essa parte da história é coisa pra conversas ‘ao vivo’.

Ainda não me acostumei com um hábito das bandas de cá: deixar de chamar os mais velhos por Seu ou Dona. Não tem jeito! O povo chama Seu Eduardo (50 e tantos anos) de Eduardinho, apenasmente. Ou Dona Gildete (70 e muitos anos) de Dete. Tento, tento, mas quando vejo ... tô chamando de Seu e Dona, e pronto! Mas tenho me adaptado bem, e tanto que comecei a demorar mais para perceber essas diferenças culturais, e passei a ficar chateada quando Lorena fica comparando as coisas daqui com as da cidade dela puxando a sardinha pro lado de lá. E olha a megalópole que é a cidade dela: Ibipitanga! Alguém já ouviu falar? Alguém?!! Não vale tia Alba... Hehehehehe À propósito: Lorena é a enfermeira que trabalha comigo.

Os passeios de bicicleta continuam de pé embora menos frequentes por causa da carga de trabalho e de algumas avarias na máquina que me renderam 2 idas a concertos. Vixiii!!! Mas pelo menos me “associei” à biblioteca particular de dona Leopoldina que conta com um acervo interessantíssimo :)

Só tenho que tomar vergonha de 2 coisas: não vi quase nada das belezas turísticas da chapada diamantina, nem tirei fotos daqui :P Mas providenciarei minha retração comigo mesma logo-logo! ;)

De resto... muita saudade de vocês, da praia [sempre que vou em salvador está chovendo :( ], do sotaque, de bolo-de-rolo, de tapioca, das rodas de conversas, ...

Muitos chêros e abraços!!! Me liguem seus falsos [exceto Rapha, painho, mainha, tia Aleide e Kádimo] , se eu for ligar pra todos vocês viro sócia da Oi !!! Ou pelo menos mandem emails. Aqui pega, já notaram :P:P:P Hehehehehe

Chêro grande! Abraços maiores ainda!!!!!

PS : “A emenda 3 ainda não desemendou mas já vivo sob seus efeitos”
Escrita em 24 de maio de 2007 (Ibitiara-BA).

b-i-c-i-c-l-ê-tê-a

Não passou da primeira semana. Conforme planejado e desejado, na primeira sexta-feira em Ibitiara - 13 de Abril - comprei minha magrela numa das 3 lojas de eletrodomésticos da cidade: Eletrônica Pereira! Roxa com prata, quadro feminino, cestinha, bagageiro, protetor de corrente e paralamas... Linda!

Empolgada fui mostrar a Dona Leopoldina achando que movimentaria o fim-de-tarde da minha primeira anfitriã, agora vizinha de rua, e ela falou:
- É né, minha filha! Começa assim... mas daqui a uns dias vocês compra um carrinho.
Conversamos um bocado, ela contando histórias dela no Rio, inclusive de uma senhora de posses que andava de bicicleta, mas fiquei com aquela primeira frase na cabeça...
Ser médica no interior é diferente. Sobretudo pelo "a" no final: medicA. Na primeira reunião com os agentes comunitários de saúde, sem jaleco, sem salto alto, falando de igual pra igual, não exitaram em dizer que pensaram que eu fosse assistente social. Atendendo pacientes não é raro ouvir: "Mas tão novinha!!!" Adotei então o jaleco de volta, e o anel de formatura. Não me renderei a saltos-alto facilmente. Isso não!

Fim-de-semana passado fui pra Salvador visitar Nau e Lua, e resolver minha transferência pro Cremeb. Percebi melhor o quanto gosto, ou me acostumei, à rotina das cidades grandes. Poder andar como mais alguém na multidão, sem se preocupar, sem importar se tem diploma, se é mulher, se é preto ou branco... Também tava sentindo falta de movimentação, barulho, e sobretudo de atividades de lazer e cultura.

Fomos à Bienal do livro, muito legal embora esperasse mais. No sábado a noite, me preparando pra viagem do outro dia cedinho, comecei a sentir falta de passar mais um tempo ali, poder ir ao cinema, ou teatro, à um show... Às 10 pras 8hs decidi, e desci do apartamento pra pegar a peça "Vixe Maria : Deus e o Diabo na Bahia" que começava às 8horas, no ACBEU. Claro que não tinha mais ingressos...mas falando da minha situação de "isolamento cinemato-teatrístico" para a coordenadora do espetáculo, ela conseguiu um lugarzinho pra mim :) Excelente!!! Depois conto pra vocês o enredo... Me acabei de rir. Muito mesmo. No final me arrepiei ao som "Chame Gente", de Moraes Moreira ( "Ah, imagina só, que loucura que é essa mistura. Alegria, alegria é o estado que chamamos Bahia. De todos os santos, encantos e axés. Sagrado e profano o bahiano é ..." ) E ontem descobri uma expressão pra definir como ando me sentindo: peba. Mas peba no bom sentido; não de coisa sem valor, de má qualidade, etc. Peba, de pe + ba, pernambuco + bahia. [tia Udeilda prefere dizer pernambahiana]

Ainda tenho o costume de comparar as coisas mas vou procurar parar com isso porque tenho percebido que vendo, exercitando a empatia, entenderei melhor as pessoas/costumes/necessidades do que através da comparação. Melhor recorrer à história do que à comparação entre culturas.

Hoje saio do meu primeiro plantããããooo [hein, pai?] em Seabra de volta a Ibitiara. Último dia de Micareta. A micareta da paz. Em outros lugares a gente diz : "a cidade pára por causa da festa"; lá a gente diz "a cidade se movimenta por causa da festa". Mas será que a doutora pode dançar axé em praça pública? Me arrisco não. Até porque tô desatualizada nos passinhos. Vou me ater a arriscar andar de bicicleta que já anda chamando bem a atenção dos ibitiarenses. Pelo menos é sinal de cuidado com a saúde ;)

"Corpo ao vento, pensamento solto pelo ar,
Pra isso acontecer basta você me pedalar,
b-i-c-i-c-l-ê-tê-a
sou sua amiga bicicleta"
(Toquinho)

Beijos, beijos.
Saudades!
Escrita em 29 de Abril de 2007 (Ibitiara-BA)

grande sertão

Há 10 dias em solos sertanejos. Tempo suficiente para perceber que a vida caminha em ritmo diferente. Logo que cheguei me impacientava com a falta de pressa das pessoas. Mesmo sem me dar conta, inicialmente, ficava me perguntando "como podem não ter pressa desse jeito?!" Será que o mito da bahianidade é verdade, e não mito?!

Mas o povo daqui em quase nada se assemelha aos bahianos do recôncavo; à bahianidade midiaticamente propagada. No falar, no andar, no agir, no olhar ... mais parecem mineiros. Aqui ou ali escuta-se um "môça!", "quentim!", e por ai vai. Engolem-se as vogais da última sílaba das palavras. Olham-nos desconfiados. Falar alto? Ainda não encontrei esse! Começo a achar que o sertão de cerrado que se estende de minas até as bandas de cá, e outras bandas à oeste, abriga uma mesma população em termos sócio-culturais!!! Mas antes de mim, muito antes de mim, descobriu isso João Guimarães Rosa. Mas ainda há muito por ser descoberto, vivido.

Logo acontecem os primeiros choques linguísticos : macaxeira aqui chamam aipim, jerimum é abóbora, massa puba é povilho, e não ouse chamar jaleco de bata. Afora o sotaque, as interjeições, e outras coisinhas que se revelam coisonas! Outro choque é o fato de ninguém, absolutamente ninguém, conseguir te explicar como chegar de um lugar para o outro. Mesmo o lugar sendo na rua seguinte, ou por mais simples que seja o caminho, todos ou apontam dizendo que é melhor que vá com ele/ela ou com alguém que saiba ir, ou te levam no lugar! Uma vez quase perco a paciência... respirei fundo, e pensei comigo mesma "paciência! respira! pergunta de outro jeito. tenta de novo"... Aos poucos vou entendendo o lugar, as pessoas. E descobrindo o quão forte é a formação cultural do ser humano; sentindo na própria carne, nas próprias idéias.

O que mais tô gostando é do clima (friozinhooo) e do tempo... Há tempo pra tirar um dedo de prosa despretensiosamente, pra olhar o horizonte e descobrir uma paisagem nova, pra respirar melhor...

Sobre o trabalho...
Alessandra, coordenadora da atenção básica e Lorena, a enfermeira que será da mesma equipe que eu, foram alunas de tia Alba na UESB! Mais um motivo pra me considerar em casa. :) As duas são muito comprometidas, corretas e não fazem corpo mole pro trabalho. Tô gostando :)
Durante esses dias estou fazendo apenas atendimentos ambulatoriais aqui na sede do município (na UBS) e em Olhos Dágua do Seco, num pequeno consultório. Olhos Dágua é um dos 3 maiores distritos daqui. Semana que vem faremos as primeiras reuniões com a equipe completa entre si e com a comunidade para que todos compreendam a proposta da estrategia de saúde da família. Hoje participei da reunião do Conselho Municipal de Saude e foi bem aceito o informe de que pretendemos ter um conselho local funcionando na nossa unidade. Em maio, se tudo correr como previsto e no ritmo que estamos, a unidade começa a funcionar! =) A estrutura é toda nova, dentro das normas do Ministério da Saúde e tudo mais. Quem sabe Jaques Wagner vem pra inauguração?!!! :P Hauhauhauhau O povo PLlista, carlista, daqui ia estribuchar!!!! Mas política no interior é um capítulo à parte que se der vontade escrevo num outro email...

Beijos para tod@s : meninas, mulheres, meninos e homens!!!
Saudades.
Escrita em 18 de abril de 2007 (Ibitiara-BA).

acolher-te é o nosso dever

Fim de tarde de sábado de páscoa. Depois de muito chão, paisagens lindas avistadas pela janela do carro e um único erro de percurso [nosso "controlador de vôo" não estava de greve mas deu bobeira] chegamos a Ibitiara recebidos pelo portal com essa frase : "acolher-te é o nosso dever". Fala com um, pergunta a outro, anda mais um pouquinho... chegamos ao hotel são jorge - uma casa modesta adiministrada por dona Leopodina, senhora cujo tempo de vida não apagou a beleza nem a memória. Logo nas primeiras conversas despejou todos seus conhecimentos sobre a história do Brasil ao saber que assim como tio Gunga tivera sido funcionária da Petrobrás. Deixamos os 'panos de bunda' e fomos voltear pela cidade.

Localizada entre montanhas, Ibitiara possui todas as casas de alvenaria, todas as ruas calçadas, saneadas e com iluminação pública. Até onde tem casa, tem calçamento. E nem pensem que é uma rua central e meia duzia de transversais formando um lugarejo qualquer. No meio da cidade tem uma lagoa protegida por uma mureta para que os motoristas mais devisados e os pedestres mais ébrios não tchibunguem água adentro. Ao redor várias ruas dispostas aleatoriamente. Casa pra todos os gostos. Muro alto, cerca elétrica, grades, anúncios de cão de guarda? Nem pensar. A paz reina! Dormir de janelas e portas abertas não é coisa do outro mundo. Fecha-se para se protejer do frio ou da chuva, mas não dos seres humanos.

Minha casa sem número fica ao lado da secretaria de saúde. Na praça da catedral enorme construida pela Padre Aldo Coopola, dono do hospital filantrópico do municipio e pai de muitos filhos. Isso mesmo: pai de muitos filhos!!! Andei sabendo que não é o único clérico-pai da região... O nome da Praça "Pró-XX" é marca deixada pela 'brigada' do projeto Rondon que cá esteve nos idos dos anos 70. Descendo a rua chegamos à prefeitura, ladeada pelo Bar do Luiz, empresário de fim-de-semana e vigilante do Banco do Brasil. O Banco fica do outro lado da ponte sobre a lagoa. Pertinho tem : a agencia do Correio [que também é agencia do Bradesco], a lotérica, um supermercado, um armarinho, uma loja de confecções e outros comércios menores. Ainda não comprei minha bicicleta mas de amanhã não passa.

Esses dias foram dedicados a conhecer o lugar e as pessoas, acertos de trabalho e mudança. Já tenho meu quarto, com guarda-roupa, cama e uma varandinha legal. A casa é pequena mas tem primeiro andar. O mais legal é a paisagem [embora tenham outros lugares em termos de paisagem na cidade] e minha companheira de moradia e trabalho: Roberta, enfermeira da unidade de saúde daqui da sede do municipio. Gente finissima! Simples, sem frescura, ativa, comprometida com o trabalho, e, assim como eu, tem 24 anos e adora cantar nas horas vagas.

Já conheci meio-mundo de gente na cidade, e ja conheci também o municipio vizinho [Seabra] onde trabalharei alguns fins-de-semana. O povo daqui renderá uns e-mails à parte, mas vocês têm algo comum : vocês se espantam porque que eu vim pra cá, eles se espantam porque que eu vim dai !!!

Ao meu irmão puliça e ao meu pliminho juju [depois de pegar ar - hauhauhauhauahau - vocês num prestam] digo apenas que tragam os apetrechos que queiram, mas despreocupem-se com cadeados, grades, coletes a prova de balas, e outros utensílios necessários à vida na selva de pedras que se tornaram nossas capitais. E venham me visitar logo, seus alminhas, que já tô com saudade :P

Chêro grande.
Escrita em 12 de abril de 2007.