terça-feira, 22 de abril de 2008

laços de família

Foi o pai de Eme que me fez pensar nisso : “nunca perguntei a um paciente se ele estava sofrendo de remorso, culpa ou coisa parecida”. O pensamento não veio na hora do atendimento – consultei-o em uma urgência com relato de vômitos, em alguns momentos com sangue – demorou o tempo de eu reunir informações aqui e acolá. Lembrei que a assistência social havia me pedido pra avaliar uma menina com suspeita de abuso sexual. Lembrei de uma família nova da área, com uma mãe que trouxe os filhos pra consulta bastante ansiosa, quase aflita, com um olhar de quem se sente em ameaça constante. Foi essa mãe que naquela segunda-feira trazia o marido, igualmente ansiosa. Dias depois juntei as pecinhas do quebra-cabeça. Mas o que é de quebrar mesmo a cabeça são os questionamentos desde então. Como abordar uma mãe com uma filha possivelmente vítima de abuso que não toca no assunto em momento algum? Como abordar um pai que só vai à unidade em situação de extrema necessidade? Ainda que o posto seja pertinho da casa das pessoas como fazer uma visita domiciliar que não está sendo requisitada pela família? Não consigo deixar de pensar que o vômito do pai foi um movimento de expulsão de aflições, angústias, culpa quem sabe. A única convicção que tive/tenho é a de que preciso aprender a perguntar sobre as culpas e rancores que as pessoas carregam. Concluí também que carrego comigo uma postura algo paternalista. Talvez a saída seja a máxima : “hai que endurecer, sim perder la ternura jamais”. Difícil! Mas acredito ter começado a fazer progressos ...

Depois de atender Nana por um ano inteiro, com queixas quinzenais quando não semanais, as de sempre e outras novas, sempre com um semblante triste, cabisbaixa, preocupada com os problemas da mãe, sem melhora nem sequer adesão a nenhum tratamento proposto, depois de alguns atritos entre mim e ela (sobretudo pela não adesão ao tratamento), resolvi jogar duro. “Se chega já dizendo o que tem pra perguntar o que fazer é porque quer ouvir minha opinião. Certo? E pretende seguir minhas orientações. Certo? Você chega, consulta, oriento, você vai e não faz nada, então não tenho mais como te ajudar. Você fica se boicotando e eu fico fazendo papel de besta.Você já pensou nisso?” Depois disso ela prometeu se esforçar para seguir as recomendações. Na consulta seguinte chegou com a pressão mais controlada. Foi a hora da próxima pergunta: “você se considera uma pessoa triste ou feliz?” Seguiu-se um relato sobre sua vida : os pais se separaram, a mãe foi morar fora, o pai se casou novamente e a madrasta não o respeitava, se casou nova, logo teve filhos, com poucos anos de casada o marido surtou, passou um tempo em internação psiquiátrica, teve melhora, mas não pôde mais contar com ele para dividir as preocupações, o filho mais velho assim que pôde saiu de casa pra São Paulo, a filha não se interessa pelos problemas dela, a mãe voltou depois de anos porque ela é a filha que tem condições de lhe dar atenção mas vivem brigando, diz não ter amigos com que contar. Todos esses “pesos” são perceptíveis no seu semblante. Apesar das lágrimas, ao final disse : “eu sou feliz; acho que sou feliz”.

Na mesma semana fui visitar uma área mais distante. Conheci uma família fora dos padrões. Não se trata de dois pais ou duas mães com um filho, ou duas mães com um pai e vice-versa. Já havia atendido cada um deles no consultório em momentos distintos. Nesse dia soube que a mais velha é tia (Lia) das duas mais novas que dormem cada uma em sua casa (vizinhas) mas filho de uma delas mora com a tia, no caso tia-avó. As duas sobrinhas são pacientes psiquiátricas mas até então não sabia serem irmãs. Pergunto a Lia se os pais delas eram parentes próximos, se as maltratavam ou coisa parecida. Ela explica que uma delas sempre foi diferente, mais lenta pra aprender as coisas, desatenta, chegou a casar mas nunca teve filhos. A outra foi casada. E no parto do segundo filho quando ia receber alta viu o marido chegar no hospital esfaqueado quase sem vida. Poucos meses depois o filho mais velho morreu de uma hora pra outra. Nunca mais se recuperou. Lia sustenta o lar muito mais de que com sua aposentadoria, sustenta com os ossos e articulações tortas da artrite.

Devíamos ter aulas de literatura na faculdade. Leitura obrigatória: Laços de Família, Clarice Linspector; dentre infinitas outras.

(Ibitiara-BA)

Um comentário:

netocazuza disse...

Dra. Amanda, faz tempo que não escreve, né? Adorei tudo que li. Parabéns pela sua capacidade de brincar com as palavras e nos envolver. Confesso que li tudo avidamente, e se isso for pecado que me seja permitido ler. Tenho certeza que é tão boa médica quanto é escritora, e to sentindo cheiro de livro por aí. Obrigado por me tirar do trabalho e preencher minhas horas com boa literatura. Abraços e fica com Deus.