terça-feira, 4 de dezembro de 2007

participo desse lugar


Pra onde se olhava era marrom, de vários tons - e muita, muita poeira. Foi assim por alguns meses. Dez dias de chuva, um atolamento e três dias de sol depois o verde começa a tomar conta de tudo. As primaveras floriram um amarelo mais intenso que o do ipê. É tempo de plantar! Arar a terra com carro de boi. Semear milho e feijão. O gado que já exibia as costelas e andava léguas pra tentar matar a sede agora como capim novinho-novinho, e os açudes todos se encheram.
Há muito não escrevia pro Diário. O que dizer não faltou. Mas quando as palavras não me brotam com fluência prefiro não insistir. Talvez tenha sido as férias que dei pra magrela - pedalar me inspira. Nem sei por que dei, mas foi sendo assim.
Nesse meio tempo a equipe do PSF mudou, eu mudei, painho e mainha se mudaram, meu tio está mudando (amém), Dezza casou, Gardênia nasceu, a luz do Posto acendeu, e a colônia Ibitiarense cresceu: seja bem-vinda Delle!!!
O tempo passa! Mas Einstein diria que é a gente que acha que ele passa, porque na verdade ele é. Questões físicas à parte... Depois de amanhã eu e os amigos/colegas da turma 110 completamos um ano de formatura. Parece que foi ontem. Começo a aprender o que é ser médica – um dia o serei em plenitude! Percebo que tive grandes mestres mas a universidade carece de muitos mais. Sinto saudades dos poucos que encontrei. Hoje os tenho nas pessoas que cuido. Vejam que figuras:
Hoje consultei pela décima terceira vez Dona Rita. Isso mesmo: treze consultas num intervalo de seis meses; cada uma delas com duração de no mínimo vinte minutos. Além de hipertensa e diabética, é tarada por tudo que não pode comer. Fora as reavaliações de rotina essas idas e vindas se dão por causa de sucessivas “crises de mal-estar”. Lá pra quinta consulta comecei a perceber que as crises ocorriam quando a glicemia dela normalizava (dentro dos parâmetros oficiais). Hoje foi ao atendimento queixando-se de mal-estar e com a glicemia normal. Mais uma vez reduzi as medicações do diabetes e lhe disse: “Não vamos mais controlar seu diabetes e sim seu bem-estar. A senhora vai ficar bem e com a glicose um pouquinho alta sem maiores problemas.”
Alguns dias atrás uma senhora de 70 e muitos anos chega pra consulta sozinha, senta, lhe dou bom-dia, pergunto como está se sentindo, ela levanta e, quase alcançando os pés com as pontas dos dedos das mãos sem dobrar os joelhos, diz: “é que quando eu faço assim dói aqui no fim das costas”.

Me esforço pra lembrar de outros tantos casos mas já não consigo mais recolher histórias transmitindo o tom pitoresco como antes. Penso que meu ouvir e meu olhar percebem de outra maneira o que me mostram e dizem as pessoas. Consigo ser mais empática, e menos crítica aos relatos que me fazem. Deve haver uma explicação/expressão antropológica pra isso, a que me vem à mente é: participo desse lugar.

Por fim deixo as palavras do poeta João Paraibano:

“Quando chove no sertão
O sol deita e água rola
O sapo vomita espuma
Onde um boi pisa se atola
E a fartura esconde o saco
Onde a fome pedia esmola”

(Ibitiara-BA)