Na primeira oficina de reciclagem que fizemos lá na Unidade (muito proveitosa e estimulante por sinal) acabamos durante o almoço caindo num tema corriqueiro para recém-chegados como eu (não mais tão ‘recém’ assim) : o jeito do povo falar. Confessei uma garfe acontecida num dos primeiros plantões:
Ao chegar à beira do leito da paciente depois de ter avaliado as informações contidas no prontuário que mostravam que sua situação era bastante delicada – sua função cardíaca estava muito comprometida – pergunto:
- Como a senhora passou de ontem pra hoje?
- Passei bem. Mas olhe, não consigo desistir!
- Não desista não! Seguindo o tratamento certinho a senhora vai melhorando aos poucos – disse eu tentando animá-la.
- Dotôra, eu vou no banheiro [começo a perceber que quando ela fala passa a mão na barriga em movimentos circulares] tento, tento... Mas não desisto!
A ficha cai e respondo:
- Ah, a senhora não tá conseguindo fazer cocô...
- É, dotôra. Faz dias... eu sou ruim de desistir!
Saio rapidinho pra não rir na frente dela.
Pronto! Pra que eu fui contar? Todo mundo deu boas gargalhadas (inclusive eu) pela minha “falta de noção em lingüística regional”. E toda vez que vejo a(o)s meninas(os) – agentes de saúde – eles dizem:
- E ai, Amanda? Não desista não, viu!!!
E a gente cai na gargalhada.
Vou escrever aqui uma amostra das coisas que ouço. Captar o significado das expressões vai ficando fácil. Difícil é reproduzir a linha de raciocínio dos relatos de muitas pessoas sobre o que se passa no seu corpo e mente. Pense?! [risos] Lá vai um pouco do “dicionário da língua sertaneja”:
Desistir – o mesmo que obrar, defecar; ato de pôr o cocô para fora.
Cessar – peneirar; passar por uma trama uma massa ou farinha para torná-la mais fina.
Sou cozida(o) – expressão para designar que a pessoa possui as fezes ressecadas, o cocô duro pra sair.
Tombando – ato de se revirar associado em geral sintomas dolorosos ou desorientação.
Ramo – o mesmo que estopor, ou estoporo – sair do quente e pegar um vento frio, ou estar no frio e tomar rápido algo quente; o mesmo que choque-térmico, porém seguido de um adoecimento profundo.
Esbaguar – secretar.
Estilar – nariz escorrendo; coriza.
Malino – quem faz malinesa; “esse menino é malino demais”; traquino, travesso, treloso, desinquieto; no interior de pernambuco dizem “esse menino é os pés da besta”.
Sussar – ato de ninar, acalentar carinhosamente com cantigas.
Tiché – ou totó; genitália externa feminina, cientificamente chamada de vagina.
Dá de corpo – outra expressão para denominar o ato evacuatório; fazer cocô.
Orelha Seca – polícia, para os moradores do vale do Capão.
Pé de pano – o mesmo que ricardão, urso, sócio; aquele que faz de outrém ‘corno’.
- Como a senhora passou de ontem pra hoje?
- Passei bem. Mas olhe, não consigo desistir!
- Não desista não! Seguindo o tratamento certinho a senhora vai melhorando aos poucos – disse eu tentando animá-la.
- Dotôra, eu vou no banheiro [começo a perceber que quando ela fala passa a mão na barriga em movimentos circulares] tento, tento... Mas não desisto!
A ficha cai e respondo:
- Ah, a senhora não tá conseguindo fazer cocô...
- É, dotôra. Faz dias... eu sou ruim de desistir!
Saio rapidinho pra não rir na frente dela.
Pronto! Pra que eu fui contar? Todo mundo deu boas gargalhadas (inclusive eu) pela minha “falta de noção em lingüística regional”. E toda vez que vejo a(o)s meninas(os) – agentes de saúde – eles dizem:
- E ai, Amanda? Não desista não, viu!!!
E a gente cai na gargalhada.
Vou escrever aqui uma amostra das coisas que ouço. Captar o significado das expressões vai ficando fácil. Difícil é reproduzir a linha de raciocínio dos relatos de muitas pessoas sobre o que se passa no seu corpo e mente. Pense?! [risos] Lá vai um pouco do “dicionário da língua sertaneja”:
Desistir – o mesmo que obrar, defecar; ato de pôr o cocô para fora.
Cessar – peneirar; passar por uma trama uma massa ou farinha para torná-la mais fina.
Sou cozida(o) – expressão para designar que a pessoa possui as fezes ressecadas, o cocô duro pra sair.
Tombando – ato de se revirar associado em geral sintomas dolorosos ou desorientação.
Ramo – o mesmo que estopor, ou estoporo – sair do quente e pegar um vento frio, ou estar no frio e tomar rápido algo quente; o mesmo que choque-térmico, porém seguido de um adoecimento profundo.
Esbaguar – secretar.
Estilar – nariz escorrendo; coriza.
Malino – quem faz malinesa; “esse menino é malino demais”; traquino, travesso, treloso, desinquieto; no interior de pernambuco dizem “esse menino é os pés da besta”.
Sussar – ato de ninar, acalentar carinhosamente com cantigas.
Tiché – ou totó; genitália externa feminina, cientificamente chamada de vagina.
Dá de corpo – outra expressão para denominar o ato evacuatório; fazer cocô.
Orelha Seca – polícia, para os moradores do vale do Capão.
Pé de pano – o mesmo que ricardão, urso, sócio; aquele que faz de outrém ‘corno’.
(Ibitiara-BA)