terça-feira, 4 de setembro de 2007

vocábulos

Na primeira oficina de reciclagem que fizemos lá na Unidade (muito proveitosa e estimulante por sinal) acabamos durante o almoço caindo num tema corriqueiro para recém-chegados como eu (não mais tão ‘recém’ assim) : o jeito do povo falar. Confessei uma garfe acontecida num dos primeiros plantões:
Ao chegar à beira do leito da paciente depois de ter avaliado as informações contidas no prontuário que mostravam que sua situação era bastante delicada – sua função cardíaca estava muito comprometida – pergunto:
- Como a senhora passou de ontem pra hoje?
- Passei bem. Mas olhe, não consigo desistir!
- Não desista não! Seguindo o tratamento certinho a senhora vai melhorando aos poucos – disse eu tentando animá-la.
- Dotôra, eu vou no banheiro [começo a perceber que quando ela fala passa a mão na barriga em movimentos circulares] tento, tento... Mas não desisto!
A ficha cai e respondo:
- Ah, a senhora não tá conseguindo fazer cocô...
- É, dotôra. Faz dias... eu sou ruim de desistir!
Saio rapidinho pra não rir na frente dela.

Pronto! Pra que eu fui contar? Todo mundo deu boas gargalhadas (inclusive eu) pela minha “falta de noção em lingüística regional”. E toda vez que vejo a(o)s meninas(os) – agentes de saúde – eles dizem:
- E ai, Amanda? Não desista não, viu!!!
E a gente cai na gargalhada.

Vou escrever aqui uma amostra das coisas que ouço. Captar o significado das expressões vai ficando fácil. Difícil é reproduzir a linha de raciocínio dos relatos de muitas pessoas sobre o que se passa no seu corpo e mente. Pense?! [risos] Lá vai um pouco do “dicionário da língua sertaneja”:
Desistir – o mesmo que obrar, defecar; ato de pôr o cocô para fora.
Cessar peneirar; passar por uma trama uma massa ou farinha para torná-la mais fina.
Sou cozida(o) – expressão para designar que a pessoa possui as fezes ressecadas, o cocô duro pra sair.
Tombando – ato de se revirar associado em geral sintomas dolorosos ou desorientação.
Ramo – o mesmo que estopor, ou estoporo – sair do quente e pegar um vento frio, ou estar no frio e tomar rápido algo quente; o mesmo que choque-térmico, porém seguido de um adoecimento profundo.
Esbaguarsecretar.
Estilar – nariz escorrendo; coriza.
Malino – quem faz malinesa; “esse menino é malino demais”; traquino, travesso, treloso, desinquieto; no interior de pernambuco dizem “esse menino é os pés da besta”.
Sussar – ato de ninar, acalentar carinhosamente com cantigas.
Tiché – ou totó; genitália externa feminina, cientificamente chamada de vagina.
Dá de corpo – outra expressão para denominar o ato evacuatório; fazer cocô.
Orelha Secapolícia, para os moradores do vale do Capão.
Pé de pano – o mesmo que ricardão, urso, sócio; aquele que faz de outrém ‘corno’.

(Ibitiara-BA)

domingo, 2 de setembro de 2007

tal coisa

Há dias que parecem programados para pôr à prova nossas escolhas. Esses dias têm sido assim pra mim.
Ao decidir sair do lugar onde vivi minha vida inteira para morar e trabalhar em outro lugar tão distante e diferente julgava ter noção de como seria essa experiência. Hoje vejo que noção nenhuma substitui a vivência em si. Sonho e concretude são complementares, mas jamais se permutam!
Dentre tantas vivências que me fazem pensar nisso conto uma...
Em vinte e quatro horas passei por um parto demorado e uma morte rápida. [[morte e vida estão sempre presentes em minhas reflexões, não é? na verdade estão nas de todos nós ... acredito]] Fui testada em minhas aptidões e habilidades obstétricas porém me sai melhor como ‘neonatologista por necessidade’! Vi a dor de uma família ao “perder pra morte” um ente querido que já chegou falecida ao hospital e só concretizar isso ao ouvir de minha boca: "morreu".
Mas como diz o samba – “Deus dá o frio conforme o cobertor” – tratou Ele de me mandar um cobertor em forma de humano aos oitenta e muitos anos de sabedoria por apelido Filhinho, que agradeceu a mim pela atenção e pelos cuidados prestados mesmo após ter feito uma palestra sobre a vida que me arrancou lágrimas, levando junto o peso do coração e uns vinte nós da garganta.
Alguém pode estar se perguntando: e porque esse nome ‘tal coisa’ para o texto? No começo da escrevinhança coloquei como uma homenagem a Seu Filhinho, que fala “tal coisa” onde comumente usamos “isso”, “aquilo”. Agora acho que ‘tal coisa’ também serve pra falar de um sentimento que a gente sente quando está crescendo. Algo como se fosse uma mistura de descontentamento, serenidade, raiva, saudade, ... Como se fossem todos eles ao mesmo tempo, sem ser nenhum deles! Quem já passou ou sentiu deve saber do que tô falando.

PS: Felicidades aos macacos : Asas, Alfred e Iza. =*

(Seabra - BA)