segunda-feira, 9 de julho de 2007

moribundos

Era pra ser apenas mais uma semana. Mas se iniciou e findou morbidamente. Eu explico como foi isso...
Em plena terça-feira, não sei porque cargas d’água, comentávamos sobre histórias de morte, e como cada uma de nós achava melhor morrer, no nosso anexo da SMS, vulgo “casa”.
Na quarta-feira fizemos uma visita devida há mais de uma semana : eu, Ló, Seu Renilson [nosso motorista e membro interino da equipe – pode não opinar mas ouve quase todas as discussões que temos durante as viagens de ida e volta ao trabalho] , Edson [conselheiro tutelar, conselheiro do conselho de direitos, pau-pra-toda-obra, e agente de funerária], e uma funcionária do cartório [vez por outra damos carona a alguém]. Chegamos à casa de Seu Menelau. Como sempre cabisbaixo mas dessa vez de barba feita e menos triste. Levamos um susto na primeira visita ao vermos sua ferida comprometendo a totalidade da circunferência perna direita, de uma profundidade, aspecto e cheiros horrentos! Divide a pernas em duas partes: pé e coxa inchados e escurecidos. Sabe-se Deus, e só Ele mesmo, como ainda consegue ter circulação e sensibilidade no pé. Em pouco tempo fazemos seu primeiro curativo – o último fora há tanto tempo que nem o ano ele sabe dizer qual foi; a idade da ferida ele relatou ter mais de 20 anos. Isso mesmo: vinte anos!!! Falamos da importância de ele ser persistente no tratamento, de ter força de vontade pra ir à Unidade de Saúde, que estamos fazendo nossa parte, mas que sua melhora depende sobretudo dele. Parece que dessa vez ele se convenceu mais conosco. Partimos. Mas o cheiro da ferida e sua imagem nos acompanhou na volta pra casa. Começo a entender o porque do isolamento social em que ele se imbuiu ... Faltava mais a descobrir - sempre falta - a funcionária do cartório disse que ele recebe benefício do INSS por causa da ferida. É... renda mínima às custas da própria vida. Morte em vida!
Seguimos viagem e pra descontrai perguntei a Edson como andava os negócios, se ele estava vendendo muitos planos funerários, se as pessoas achavam ofensa oferecer esse tipo de serviço. Ele me conta que não, que tem gente que acha que traz mal-agouro mas outros gostam de se precaver e providenciar tudo antes que o bendito dia chegue. Conta ainda que um de meus pacientes mais assíduos - Seu Ivanildo – já comprou o seu plano; e mais, comprou o plano que dá direito a servir chocolate quente no velório!!! Não pude deixar de cair na risada. E seguimos falando dos causos sobre funerárias e velórios...
Na quinta-feira, em Santa Quitéria, conheço Seu Raimundo. Já nos primeiros minutos da consulta ele desaba a chorar contando como sua vida mudou depois do derrame. Conta da vida próspera que teve em São Paulo, da dedicação aos filhos que o deixaram, nem mais dão um telefone pra saber como ele está. Seu corpo ainda forte padece. Não só de Diabetes, nem Hipertensão, nem com as seqüelas do AVC, mas de tristeza, de solidão! Minhas palavras são o que ofereço, ressaltando sua lucidez, a benção de ter sobrevivido ao aneurisma. Mas no fundo penso se não era melhor ter perdido a vida de uma vez. Não aos poucos como por hora acontece!
Padece também de solidão Dona Nair. Na primeira consulta nem suspeitei, pensei tratar-se tão somente de mais uma paciente hipertensão e bronquítica. Na segunda soube que sua família havia ido toda pra São Paulo, todos os irmãos, ela jamais se casara, e os pais morreram. E avaliando mais atentamente percebi uma taquipnéia [respiração acelerada] que só aconteceu mediante a minha aproximação pra lhe examinar. E questionei no prontuário : “hipocondríaca?”. Na última consulta constatei. Não pude negar pra mim, muito menos pra ela : “Dona Nair, a senhora tem o pulmão perfeitamente saudável. Se brincar, melhor que o meu. Me diga? O que está acontecendo? A senhora está preocupada? Angustiada? Triste?” Ela não se abriu. Permaneceu renitente, mas percebeu que eu já percebi do que se trata seu problema. Apenas falou ao fim da consulta : “Você pode escrever esses remédios nessa receita? É que quando eu for no INSS eles precisam ver que tô tomando ele.” Não transcrevi. E confesso que ainda não sei se agi certo...
No fim-de-semana, preocupada com a congruência astral de vivenciar o dia 07/07/07 em pleno plantão, pus minhas orelhinhas em pé. E não foi à toa. A clínica cardiológica estava recheada de sobreviventes : sobreviventes de AVCs, sobreviventes de infartos, sobreviventes de arritmias e insuficiências cardíacas, sobreviventes de diabetes ... sobreviventes! Enfermaria repleta!!! Mas felizmente, o mal-presságio se concretizou no domingo. E bem distante dali. Os pacientes evoluíram bem. A morte tirou a vida de Dr. Gildo, médico de 48 anos, que já havia trabalhado lá na clínica, conhecido por sua rapidez : no centro cirúrgico e ao volante. Essa última lhe tirou a vida na estrada... Que encontre bom descanso e paz.
Acaba semana, acaba!
*todos os nomes de pacientes são fictícios.
(Ibitiara-BA)

3 comentários:

Benilaura disse...

Eu leio! eu leio tudinho que você escreve! :-)
Ou seja contínue escrevendo...

Bjus e fica com DEUS

Benilaura disse...

Ei! descobri como se comenta sem ter o blogger e só colocar o Login e a Senha do GMAIL ..

Amanda Benemérita disse...

hehehehehehehe
garota esperta ;)
beijo.