segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

vox populi

A maioria de nós preocupa-se muitíssimo quando nos é dada a missão de falar sobre algo a uma platéia. Continuo achando que mais difícil que "saber falar" é saber escutar! Seguem pérolas me dadas no dia-a-dia:

"Ela toma aquele remédio, doutora! Aquele... [?] que TODO MUNDO TOMA...[?] Diazepan!"

"Tá doendo aqui no pé da barriga. Uma cóoolica forte!!! ... ['silêncio'; só se ouve a caneta passeando pelo papel]...A senhora não vai passar Buscopan não, né?! Tenho alergia!" [às 03h30 da manhã de uma sexta-feira]

(Salvador - BA)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

sobre brócolis e injeções

Qual não foi a minha surpresa naquela manhã de atendimento na USF ao ouvir sair da boca daquela pequena flôr com pouco mais de 3 anos assim que entrou no consultório aquelas palavras:
- Eu quero injeção!!!
- Ela ficou esse tempo todo lá fora esperando e pedindo pela injeção, Doutora - completa a mãe pra ver se meu queixo acaba de cair.

Qualquer semelhança não é mera coincidência:

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

“Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem”

Qual será a medida certa da maldade?

Peço licença aos cristãos - sejam católicos ou protestantes - para lançar esta questão: “qual será a medida certa da maldade?” Não se trata de trocadilhos, jogo de palavras ou coisa do gênero. É uma questão que me tem tomado horas de reflexão ultimamente.

Durante a etapa universitária de minha formação procurei me espelhar muitíssimo nos mestres notoriamente humanistas. Bem antes disso, na verdade, o apreço pela medicina foi em mim despertado pela observação do lidar de minha tia Mônica com seus pacientes. Tamanho carinho, respeito e confiança mútua me moveram e motivaram pra medicina. Almejava, antes disso, a geometria estética da arquitetura. Mas a ética me fisgou!

Será o humanismo uma questão de ética ou de estética? Gritarão os pós-modernos: os dois!
Que seja.

Satisfaz-me hoje receber alguém necessitando apenasmente ser verdadeiramente ouvido sair de minha sala tendo alcançado o que fora buscar. Alguém que ouça sua história. Ouça seu corpo. Ouça seus pensamentos. Ouça para que ele mesmo possa se ouvir e se compreender de outra maneira.Fosse tão somente isso o cotidiano do trabalho seria eu premiada na loteria todos os dias. Sair com uma folha com seu nome, alguns medicamentos, data e carimbo, é acessório.

Acontece que em toda bela roseira há fortes espinhos. Acontece que nem todos tiveram a oportunidade de serem educados no construtivismo. Acontece que horizontalidade funciona muito bem pra pessoas com algum grau de civilidade e respeito ao próximo. Acontece que inventaram uma figura na saúde pública que é um misto de profissional de saúde com representante do controle social. Acontece que desde a época de Frankenstein misturebas são passíveis de gerar monstruosidades. E ai não há minimização de conflitos, dinâmicas de grupo, nem contratos de convivência que ponham freio nessa vaca indo pro brejo... Senso de coletividade, trabalho em equipe, foco nas necessidades da comunidade, parceria, etc, não há fórmulas nem “santos” da panacéia saúde publicana que dê jeito.

Eu nas minhas poucas mas boas andanças já estou bem cansada disso! A opinião que repudiei de meu tio Adelmar começo a apoiar: “agente comunitário de saúde é um ser desqualificado contratado para fazer um trabalho que exige qualificação”. Que fique bem claro que estamos falando de qualificação técnica. E porque não ética e estética? Humanistica?

Minha ilusão de que um bom trabalho junto à comunidade rende inexoravelmente bons frutos caiu por terra hoje! Nem isso barra a petulância e máleducação desses novos mutantes!
Encontrarei meu jeito de garantir minha pitada de maldade cotidiana para prevenir maiores infortúnios!

“E há tempos nem os anjos
Tem ao certo a medida da maldade
E Há tempos são os jovens que adoecem

Há tempos o encanto está ausente
E há ferrugem nos sorrisos
E só o acaso estendo os braços
A quem procura abrigo e proteção, meu amor

Disciplina é liberdade
Compaixão é fortaleza
Ter bondade é ter coragem”

Renato Manfredini Júnior Russo


(Salvador - BA)